A BRINCADEIRA DE MILAN KUNDERA

A Brincadeira é o primeiro romance do escritor tcheco Milan Kundera publicado na Cidade de Praga, em 1967. Ele iniciou sua vida de escritor com um sucesso literário, livro premiado pela União de Escritores Tchecos com uma vendagem de mais de 120 mil cópias logo nos primeiros meses. A obra não é relato autobiográfico, mas fruto de um diálogos com alguns amigos numa viagem, ele mesmo descreve a gênese deste livro nos seguintes termos: “Um dia, em 1961, fui visitar alguns amigos na região mineira onde eu vivera em outros tempos. Eles contaram-me a história de uma jovem operária presa porque roubava flores nos cemitérios para dar a seu amante. Sua imagem não me abandonou mais, e diante de meus olhos desenhou-se o destino de uma mulher para quem o amor e a carne eram mundos separados, para quem a sexualidade era o oposto do amor. Uma outra imagem surgiu como contraponto à da ladra de flores: um longo ato de amor que era, na realidade, apenas um soberbo ato de ódio. Assim – nos diz Kundera – nasceu a história do meu primeiro romance, terminado em dezembro de 1965 e intitulado A brincadeira“. Seu sucesso ganhou o mundo. Após a invasão da União Soviética em 1968 (a conhecida Primavera de Praga), o livro foi censurado pelos comunistas e deixou de circular na Tcheco-Eslováquia. Essa proibição deu uma nova imagem ao livro, o romance ganhou a conotação de arte de resistência política, não que essa fosse a intenção do autor, foram os acontecimentos que transformaram o romance de Kundera num ato político. Mesmo não sendo intencional, o livro é uma bela obra de arte de resistência a todo tipo de regime autoritário. A grande lição dessa experiência do pensamento produzida pelo escritor tcheco é que temos que ter muito cuidado com as brincadeiras, principalmente, quando não estamos vivendo num regime democrático. Os regimes ditatoriais, totalitários, teocráticos, fascistas, nazistas, são regimes mau humorados,  não toleram brincadeiras. Tudo é levado muito a sério. Viver neste espaços converte-se em algo muito mais perigoso do que é normalmente, pois perigos há em todas as partes. Porém, nestes regimes a brincadeira mais banal pode nos levar a morte. No romance, o personagem principal, Ludvik pagou um alto preço por uma irônica brincadeira, ao enviar um cartão postal para sua namorada com três frases banais: “O otimismo é o ópio do gênero humano! O espírito sadio fede a imbecilidade! Viva Trotski!”. Frases escritas para provocar, afligir, chocar, inquietar, a alma apaixonada pelo comunismo de sua namorada, entretanto nas mãos dos dirigentes do Partido Comunista foram recebidas como uma declaração de guerra, como um ataque ao coração do partido. Tipo as heresias religiosas, com essas frases, ele estava produzindo uma sacrilégio imperdoável. Por essa brincadeira, Ludvik foi levado aos tribunais superiores do partido (que lembra os tribunais do santo ofício da igreja católica) e fora condenado como inimigo do Estado. A brincadeira, o cartão provocador, tornou-se um pesadelo para o jovem comunista Ludvik. Suas punições imediata foram: deixar a diretoria da juventude comunista, a expulsão da universidade e a prisão numa mina de trabalho forçado. Além disso, aquela brincadeira produziu uma reação devastadora pelo resto de sua vida. O personagem sintetiza essa transformação numa frase: “Eu fora posto para fora do caminho da minha vida“. O jovem Ludvik reconhecido como brincalhão, alegre, irônico, a partir da condenação, e de ter sido lançado para fora do caminho de sua vida, não tinha muitos motivos para sorrir e nem para brincar. Com a condenação recebera o estigma de inimigo do partido, após este ato condenatório sua imagem pública será sempre de um infiel, de uma pessoa perigosa. Nenhum meio terá força para retificar, retirar, excluir, apagar essa imagem impregnada pelo Tribunal Supremo do Partido Comunista. Todos vão enxergar nele apenas a estigma, a imagem atribuída pela condenação torna-se mais real do que a própria pessoa, numa virada absurda, é como se a pessoa fosse transformada na sombra dessa imagem. Ludvik será sempre o furioso e cínico inimigo do regime comunista. Kundera nos narra os dramas desse homem, e assim nos revela a fragilidade angustiante da vida de quem recebe este tipo de condenação. A pessoa marcada, jamais conseguirá se desvencilhar dessa imagem produzida pela condenação pública. Todos os olhares condenam Ludvik, ao  sentir isso na própria pele ele nos diz: “É difícil viver com pessoas prontas a nos mandar para o exílio ou para a morte, é difícil fazê-las íntimas, é difícil amá-las“. Quando estamos estigmatizados até as relações entre amigos ficam abaladas, uma vez que inimigo do estado não tem amizade, tem apenas cúmplices, por isso, os amigos com medo de receber a mesma condenação se afastam, a solidão será sua companhia, pois os amigos os condenam a viver sozinho, “pois – como escreveu Kundera – não são  os inimigos, mas sim os amigos que nos condenam à solidão“. Ludvik reconhece depois de anos de dor e sofrimento, que o naufrágio de sua vida é fruto de sua funesta propensão às brincadeira ineptas. Assim, nessa experiência do pensamento, Kundera nos faz pensar como uma brincadeira simples, uma pequena frase escrita num cartão-postal, pode destruir toda uma vida, fazendo da própria vida uma brincadeira de mal gosto. Os regimes ditatoriais e totalitários laicos ou religiosos não suportam brincadeiras. A brincadeira só tem espaço quando estamos vivendo num Estado Democrático de Direito, a Democracia é o único regime que tem bom humor. Mas, além do bom humor, a democracia tem outras vantagens em relação aos outros regimes, pois, ao contrário do culto a ignorância, ela exige o esclarecimento. Como ensino Theodor Adorno, a democracia só é possível numa sociedade emancipada, ele escreveu: “a exigência de emancipação parece ser evidente numa democracia”. Então bom humor, tolerância, respeito, compreensão, esclarecimento e emancipação estão de mãos dadas no regime democrático, o que é intolerável para os adeptos ao culto da ignorância e desejam apenas ordem, fila, obediência, adestramento, sem brincadeiras e sem sorrisos… Não podem suportar uma educação para a emancipação, que é uma educação para a contradição, para resistência e que nos imuniza da ignorância cega. Por isso, fora da democracia “cuide-se bem, perigos há em toda parte… Eu quero te ver com saúde, e sempre de bom humor, e de boa vontade” com a vida e no mundo (Guilherme Arantes).

Quero agradecer ao amigo e colaborador Nertan Silva-Maia pela ilustração intitulada: Zert ou Impulso lúdico.

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SERVIDÃO VOLUNTÁRIA OU DESEJO DE ESCRAVIDÃO

Qual o preço da servidão? É possível imaginar que alguém livremente escolha a servidão? Por que e quais as razões para desejarmos a servidão? O povo pode escolher entre ser livre e ser escravo, e decidir voluntariamente pela servidão? Parece que essas questões são totalmente equivocadas pois, como a liberdade é um dos mais preciosos valores da humanidade, não fazer sentido questionar sobre a possibilidade de pessoas ou grupos de pessoas escolherem, ou pior, desejarem a servidão. Entretanto, essas questões não são assim tão esdrúxulas, o filósofo Gilles Deleuze contemporaneamente nos diz o seguinte: “à questão, de como o desejo pode desejar sua própria repressão, como ele pode desejar sua escravidão, respondemos que os poderes que esmagam o desejo, ou que o sujeitam, já fazem parte dos próprios agenciamentos de desejo” (Deleuze; Parnet, Dialogues, p. 160-1), e, na sequência, afirmou ainda que não podemos desconsiderar essa sutil cumplicidade entre o sujeito desejado e o poder que o oprime. Dentro de uma maquinaria social, podemos não desejar a liberdade. Muito antes de Deleuze, Étienne de La Bóetie escreveu, em 1549, um “panfleto”, que ficou conhecido, com o seguinte titulo: Discurso da servidão voluntária. Neste breve trabalho de reflexão filosófica, La Bóetie faz exatamente essa questão para si e para os outros: O povo pode escolher entre ser livre e ser escravo, e decidir voluntariamente pela servidão? Logo no inicio ele sentencia: “É o povo que se escraviza, que se decapita, que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios. Se fosse difícil recuperar a liberdade perdida, eu não insistiria mais; haverá coisa que o homem deva desejar com mais ardor do que o retorno à sua condição natural, deixar, digamos, a condição de alimária e voltar a ser homem? Mas não é essa ousadia o que eu exijo dele; limito-me a não lhe permitir que ele prefira não sei que segurança a uma vida livre. Que mais é preciso para possuir a liberdade do que simplesmente desejá-la?”. Porém, sua constatação é estarrecedora, para os homens e mulheres de hoje, ele nos diz: “A liberdade é a única coisa que os homens não desejam; e isso por nenhuma outra razão (julgo eu) senão a de que lhes basta desejá-la para a possuírem; como se recusassem conquistá-la por ela ser tão simples de obter”. Assim, após abrir mão da liberdade e assumir a condição de servo de um príncipe, este povo produz um processo de objetivação que de repente parece que este príncipe não é um ser humano. Na relação entre o senhor e o escravo, a ilusão do escravo produz um ser infinitamente poderoso. O senhor é colocado como um ser absolutamente diferente do comuns dos mortais e, embriagado pela ilusão, o escravo acredita que está na presença de um ser mítico. A ilusão do ídolo, o delírio do mito, a idolatria transforma um homem de carne e osso num ser, numa fortaleza, inabalável. Parece que não aprendemos a lição do profeta bíblico Daniel (Capítulo 2, O Sonho de Nabucodonosor), os ídolos são imponentes, aparentemente  fortes, mas possuem pés de barro. Isso é significativo, pois os pés de barro do ídolo são para que não esqueçamos da fragilidade do príncipe, ele é igual a todos os mortais. Além disso, meu amigo Nertan Silva-Maia fez a seguinte observação, “nós sabemos, toda idolatria é vazia e cai por si e sobre si mesma”, pois nessa relação temos a idealização do ídolo. Já aprendemos com Nietzsche o perigo das relações idealizadas. Ídolos são ideias, são perigosas, elas produzem frustrações quando o pé de barro do ídolo se parte e desmorona. A fortaleza idealizada se revela frágil. Por isso, La Bóetie faz questão de lembrar que quem o fez diferente, com tanto poder e força, foram os próprios servos, escrevendo: “esse que tanto vos humilha tem só dois olhos e duas mãos, tem um só corpo e nada possui que o mais ínfimo entre os ínfimos habitantes das vossas cidades não possua também; uma só coisa ele tem mais do que vós e é o poder de vos destruir, poder que vós lhe concedestes. Onde iria ele buscar os olhos com que vos espia se vós não lhos désseis? Onde teria ele mãos para vos bater se não tivesse as vossas? Os pés com que ele esmaga as vossas cidades de quem são senão vossos? Que poder tem ele sobre vós que de vós não venha? Como ousaria ele perseguir-vos sem a vossa própria conivência? Que poderia ele fazer se vós não fôsseis encobridores daquele que vos rouba, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de vós mesmos?”. Então, a servidão surge para o filósofo como uma doença incurável, “temos, antes, de procurar saber como esse desejo teimoso de servir se foi enraizando a ponto de o amor à liberdade parecer coisa pouco natural”. Para ele, não há dúvida de que a liberdade é algo natural “e que, pela mesma ordem e de idéias, todos nós nascemos não só senhores da nossa alforria mas também com condições para a defendermos”. Buscando confirmar sua tese, La Bóetie nos faz observar a natureza, pois, segundo ele, os animais nos dão lições e nos ensinam o valor da liberdade. “Só quem for surdo não ouve o que dizem os animais: viva a liberdade! Muitos deles morrem quando os apanham […] opõem resistência com as garras, os chifres, as patas e o bico, demonstrando assim claramente o quanto prezam a liberdade perdida. E uma vez no cativeiro, dão evidentes sinais do conhecimento que têm da sua desgraça […], continuando a viver mais para lamentarem a liberdade perdida do que por lhes agradar a servidão”. A dor da sujeição é sentimento comum aos seres humanos e animais, não dá para se habituar à servidão sem protestar pela liberdade perdida. Por isso, para conserva uma nova tirania, “não existe melhor meio se não aumentar a servidão e afastar tanto dos súditos a ideia de liberdade que o povo cativo, tendo embora a memória fresca, começam a esquecer-se dela”. E, assim, La Bóetie constata: “Incrível coisa é ver o povo, uma vez subjugado, cair em tão profundo esquecimento da liberdade que não desperta nem a recupera; antes começa a servir com tanta prontidão e boa vontade que parece ter perdido não a liberdade mas a servidão. É verdade que, a princípio, serve com constrangimento e pela força; mas os que vêm depois, como não conheceram a liberdade nem sabem o que ela seja, servem sem esforço e fazem de boa mente o que seus antepassados tinham feito por obrigação”. Só quando não se conhece a doçura da liberdade se vive na servidão, pois “não é possível […] aceitar a sujeição, depois de ter conhecido o gosto da liberdade”, caso contrário sentiremos sempre o amargor do veneno da servidão. Então, para La Bóetie, só quem nasceu com a canga no pescoço esta desculpado por não lutar por sua liberdade, pois é a força do hábito, do costume, recebido na educação pode justificar uma servidão voluntária. Mesmo assim, no diz o filósofo, “sempre haverá umas poucas almas melhor nascidas do que outras, que sentem o peso do jugo e não evitam sacudi-lo, almas que nunca se acostumam à sujeição”. Porque as tiranias só sobrevivem quando conseguem subtrair do povo sua “liberdade de agir, de falar e quase de pensar“. Enquanto existir a liberdade de ação (direito de ir e vir), a liberdade de pensamento (direito de refletir sobre qualquer coisa), a liberdade de expressão (direito de comunicar o que se pensa), teremos condições de sonhar e gritar por nossa liberdade.  Ação, comunicação e reflexão são constitutivas da nossa condição humana, sem isso somos de fato e direito escravos de um sistema. Não podemos perder esses direitos fundamentos que nos fazem humanos. Servidão voluntária jamais, nem os animais suportam a vida de servidão.

Gilles Deleuze; Claire Parnet. Dialogues. Editora Flammarion, 1996.

Étienne de La Bóetie. Discurso da Servidão Voluntária. Microsoft. iBooks.

TEB –  Tradução Ecumenica da Bíblia. Edição Loyola, 1994.

Quero agradecer ao amigo e colaborador Nertan Silva-Maia pela ilustração intitulada: Solidão voluntária ou Medo da liberdade.

A MORTE DA NOVA REPÚBLICA

A Nova República brasileira surgiu com o esgotamento da ditadura militar (1/Abril/1964 a 15/Março/1985), depois destes 21 anos, que fomos obrigados a viver numa República Verde-oliva, nos quais apenas os generais, que tomaram de assalto o poder, revezaram o comando o Palácio do Planalto Central, chegou ao fim essa longa noite do Brasil de torturas, desaparecimentos e mortes. A nova República teve sua origem dos escombros de uma sociedade sucateada, ela surgiu como primavera após longo e tenebroso inverno. Apesar de completar apenas 33 anos, a democracia recém construída esta sofrendo nos últimos anos ataques violentos. Estão sangrando a nova República, ela está agonizando e existe um perigo eminente dela sucumbir ao fascismo. Não acredito que seja um esgotamento do regime democrático, mas uma crise de legitimidade das instituições que deveriam ser os fundamentos dele.  Mas, quais são os fundamentos ou pilares da democracia? A primeira coisa, é a defesa intransigente dos direitos humanos e, como consequência lógica,  o reconhecimento constitucional que todo o poder emana do povo, assim a vontade popular expressa nas urnas é o fundamento maior da autoridade pública numa democracia representativa. Não existe democracia desrespeitando o sufrágio universal. Ligados visceralmente a esse exercício livre e consciente do voto em eleições regulares e livres, um democracia representativa se fundamenta também em outras duas coisas: organizações partidárias e a separação dos poderes. Não existe democracia moderna sem partidos políticos e sem o respeito aos papeis constitucionais de cada um dos três poderes. Acredito que exatamente neste ponto temos o nosso problema, nossa democracia esta passando por uma crise porque os partidos políticos e os três poderes da República – Executivo, Legislativo e Judiciário – não são mais reconhecidos pela maioria da população como dignos de confiança. Perderam a legitimidade. Crise de legitimidade. A corrupção corroeu a credibilidade das instituições e com ela a esperança de um Brasil diferente, que seja de fato e direito de todos e para todos os brasileiros e não apenas para alguns. Como escreveram os poetas Samuel Rosa e Chico Amaral: “se o pais não for prá cada um; pode estar certo; não vai ser prá nenhum“.  A população perdeu a confiança nas instituições e, ao mesmo tempo, a autoconfiança também foi diluída, sem essa ela deixamos de acreditamos em nossa força transformadora. A frustração tomou conta da gente, e esse sentimento é entristecedor, assim por não confiarmos em nosso própria força, nos deixamos abater pela melancolia. Frustração e melancolia são sentimentos que não são favoráveis no momento que temos que decidir os rumos da vida pessoal ou coletiva. Normalmente afetados por esses sentimentos não fazermos boas escolhas, muito pelo contrário, tomados por eles quase sempre temos as piores decisões da vida e na vida. Abatidos e reconhecendo-se impotente frente a tudo que se apresenta normalmente ficamos prostrados, paralisados, catatônicos. Antes dessa situação, a pouco tempo, nós acreditávamos que estávamos num novo Brasil, transpirávamos otimismo e alegria. Mas tudo mudou. Alguma coisa aconteceu, esta tudo diferente. O otimismo deu lugar ao pessimismo, a alegria perdeu espaço para a melancolia. Agora, aconteceu um novo movimento, a frustração e a melancolia deram lugar ao ódio e ao medo. Isso é evidente nas conversas com as pessoas. Bem como, nas redes sociais as pessoas estão demonstrando essa situação. O medo, a impotência, a fraqueza. A jovem democracia brasileira parece não vai sobreviver a esse processo eleitoral. Algumas pessoas, ligadas ao candidato da extrema-direita, estão confiantes e já cantam o réquiem da Nova República (1985-2018). Entretanto, acredito que estamos vivendo um momento singular da história da nossa República. Não é o seu fim, não é sua morte. Estamos presenciando um momento que adiamos, postergamos. É a radicalização da luta entre as duas forças sociais. A elite brasileira sempre se apropriou do Estado a seu bel prazer, porém durante os 12 anos dos governos Lula e Dilma (2003-2015), as classes alijadas, excluídas, marginalizadas sentiram a presença do Estados em suas vidas. O gosto da liberdade de viver, comer, consumir, receber oportunidade de viver com dignidade. As políticas publicas destes governos fez surgir um novo povo. Aconteceu uma desterritorialização e reterritorializaram em outro território. Com isso, o Maquiavel nos ensinou que quando um povo experimenta a liberdade jamais voltam ao jugo sem se rebelar.  Querem retroceder o Brasil 50 anos em 5. Assim, o que parece fim pode ser o amadurecimento de um povo. A consolidação de uma Nação. A luta entre este dois grupos é inevitável. Como falou o professor Vladimir Safatle:

um dia essa luta iria ocorrer. Não era possível nosso país passar mais tempo sem que essa luta um dia ocorresse. Essa é uma luta que está sendo esperada há muito tempo. Não seria possível o país se constituir enquanto país, se nós, enquanto uma verdadeira sociedade inclusiva, igualitária e com uma luta constante no sentido de justiça social, se nós não nos confrontássemos com esses grupos, com esses discursos, com essas pessoas. Não havia um outro caminho a fazer.
Agora, coube ao processo histórico que fôssemos nós, neste momento, as pessoas a ter que fazer essa luta. Muitos já lutaram essa luta antes, de uma maneira ou de outra, mas nunca com todo esse drama, essa força, esse jogo que está aqui disposto. Por alguma contingência, agora somos nós. Não tem mais ninguém. Se nós perdermos, vão ser gerações e gerações que vão perder.
Nós sabemos, isso não é uma brincadeira. Nós sabemos qual é a gravidade da situação e o que vai acontecer daqui pra frente. Então, não há como esmorecer“.

Aquilo que pode parecer o retorno, o retrocesso, ou a morte da nova República, é na verdade o amadurecimento, a construção de uma Nova República maiúscula, que atenda não apenas os interesses de uma elite carcomida. Mas, para que isso aconteça, não podemos esmorecer frente as forças fascistizantes. Precisamos de coragem e determinação, alimentados pela esperança. O maior educador do século XX, nas palavras do pensador Enrique Dussel, Paulo Freire em sua última carta escreveu palavras que fortalece nossa esperança:

Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor.
Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.
Se estamos a favor da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outro caminho se não viver a nossa opção.
Encarná-la, diminuindo, assim, a distância entre o que dizemos e o que fazemos“.

Essas palavras podem alimentar nossa esperança, mas, não a esperança que apenas espera, aquela do verbo esperançar, este tipo de esperança exige atitude, impõe coerência entre o que se diz e o que se faz, assim temos que criar uma congruência radical entre nosso discurso e nossa prática. Palavra e ação devem caminhar juntas. É impossível construir uma nação  sem a redução entre o que se diz e o que se faz. Não podemos ser honestos apenas da boca pra fora, não dá para ser o honesto, apenas com discursos a favor da honestidade. São as atitudes, a postura cotidiana permeada de honestidade que edificará uma nação honesta, justa e solidária. Ação e Palavra são fundamentais para a construção de um admirável mundo novo. A Nova República só terá seu fim se mantivermos esse abismo entre o que falamos e o que fazemos. Não podemos permitir que outro inverno tenebroso chegue em nossas terras. E o pior de tudo disso é a constatação, que a morte da democracia não será pela tomada violenta do poder. Como escreveram Steven Levitsky e Daniel Ziblatt: “Democracias podem morrer não nas mãos de generais, mas de líderes eleitos – presidentes ou primeiros-ministros que subvertem o próprio processo que os levou ao poder. Alguns desses líderes desmantelam a democracia rapidamente, como fez Hitler na sequência do incêndio do Reichstag em 1933 na Alemanha. Com mais frequência, porém, as democracias decaem aos poucos, em etapas que mal chegam a ser visíveis (p.13). Uma vez que um aspirante a ditador consegue chegar ao poder, a democracia enfrenta um segundo teste crucial: irá ele subverter as instituições democráticas ou ser constrangido por elas? As instituições isoladamente não são o bastante para conter autocratas eleitos. Constituições têm que ser defendidas – por partidos políticos e cidadãos organizados, mas também por normas democráticas. Sem normas robustas, os freios e contrapesos constitucionais não servem como os bastiões da democracia que nós imaginamos que eles sejam. As instituições se tornam armas políticas, brandidas violentamente por aqueles que as controlam contra aqueles que não as controlam. É assim que os autocratas eleitos subvertem a democracia – aparelhando tribunais e outras agências neutras e usando-os como armas, comprando a mídia e o setor privado (ou intimidando-os para que se calem) e reescrevendo as regras da política para mudar o mando de campo e virar o jogo contra os oponentes. O paradoxo trágico da via eleitoral para o autoritarismo é que os assassinos da democracia usam as próprias instituições da democracia – gradual, sutil e mesmo legalmente – para matá-la (p.18-19).

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Tradução de Renato Aguiar, prefácio de Jairo Nicolau. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

 

Agradeço ao amigo e colaborador  Nertan Silva-Maia pela ilustração intitulada “COMO AS DEMOCRACIAS MORREM”.

DIA DO PROFESSOR, DIA DE RESISTÊNCIA AO FASCISMO

Professor: nome Trabalho, sobrenome Resistência. Hoje, mais do que nunca no Brasil, nós professores somos os trabalhadores da resistência. Ninguém tem dúvida da importância de nossa profissão na sociedade, somos os construtores simbólicos da maquinaria social. Artífices ou artesãos da humanidade, pois somos guardiões, conservadores e produtores de sua base imaterial. Trabalhamos com conhecimentos e pensamentos de todos os tipos: científicos, artísticos e filosóficos. Em nosso oficio diário de sala de aula e na sala de aula construímos, desconstruimos e reconstruímos conhecimentos. Num processo contínuo e dinâmico de conservação e renovação. Instigamos nossos alunos nessa dinâmica, não somos meros reprodutores ou transmissores de conhecimentos enlatados e apodrecidos, na verdade temos certeza que ninguém consegue transmitir nada para ninguém. A consciência alheia é inviolável. Nosso trabalho é de facilitadores na dinâmica do ensino-aprendizagem, pois, como escreveu Deleuze, “nunca se sabe como uma pessoa aprende”; mas o fato é que sempre apreendem por intermédio de signos lançados por um mediador, que pode ser o professor, ou um livro, ou outro aluno, ou qualquer coisa dentro deste acontecimento sala de aula. Para o pensador francês uma coisa é certa, “nunca se aprende fazendo COMO alguém, mas fazendo COM alguém”. Assim, nosso trabalho de transformação e resistência só será eficaz quando, e apenas quando, nossos alunos são ativos no processo e isso só acontece quando eles são chamados a fazerem COM seus professores e nunca COMO eles fazem. Além de proporcionar este protagonismo discente no fazer pedagógico, é necessário dinamizar nossa prática pedagógica, não dizendo faça como estou ensinando, mas faça comigo e descubra o seu próprio caminho nas múltiplas possibilidades do aprendizado humano. Precisamos também nos reinventar a todo o momento, para acompanharmos as mudanças sociais e tecnológicas e, ao mesmo tempo, resistir ao pensamento fascista que quer impor uma visão única e uniforme do nosso trabalho. Estes fascistas de plantão querem colocar uma mordaça em nossas bocas afirmado que não podemos nos posicionar em sala de aula, criaram um projeto imbecil denominado de “Escola Sem Partido”, que se não fizermos nada vai sair do submundo sombrio e bizarro onde foi gestado e tornar-se-á realidade nas escolas e universidades brasileiras. Ao contrário do que pensam e querem estes fascistas, nosso trabalho exige uma tomada de posição, não existe prática educativa neutra, estamos o tempo todo agindo politicamente. Não é possível pensar a ação docente divorciada dos debates e do exercício da política. Por isso, não podemos nos acovardar diante dos ataques sistemáticos que nossa nobre e importante profissão está sofrendo nos últimos anos, principalmente, após a tomada de poder deste grupo liderado pelo nome daquele que não deve ser nomeado, “você-sabe-quem”. E não é possível ficar neutro, a neutralidade e omissão torna-se na verdade cumplicidade com a ascensão do fascismo. Hoje DIA DO PROFESSOR não será dia de comemoração, não temos nada a festejar diante dessa conjuntura. Estão acusando que estamos compactuando com a degeneração das crianças, usando um kit de educação homossexual. Estão mentindo e nos desrespeitando. Somos vigilantes na e da educação de seus filhos, não cúmplices de pornografia infantil. Essa acusação que recebemos um kit gay nas escolas nos ofendem. Deixem de mentira. Por isso, nosso dia deve ser um DIA DE LUTA, de mobilização e de sensibilização social. ELE NÃO. Todos em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade em todos os níveis. Resistir é necessário, pois não existe vitória sem luta, e não existe luta sem resistência. ELE NUNCA!

NIETZSCHE: POR UMA FILOSOFIA OLFATIVA OU DE COMO SE FILOSOFAR COM O NARIZ

Existe na tradição filosófica, principalmente, nas filosofias de matrizes racionalistas, ou idealistas, ou espiritualistas, um desprezo ou menosprezo dos sentidos. Salvo algumas correntes, a tradição filosófica não deu importância aos sentidos. Num grande arco histórico da corrente empirista, podemos dizer que do “empirismo” clássico de Aristóteles ao empirismo transcendental de Hume, temos filósofos que compreenderam  a importância dos sentidos na produção do conhecimento. A famosa frase aristotélica: “Nada está no intelecto sem antes ter passado pelos sentidos” é reveladora do papel dos sentidos na sua teoria do conhecimento. Os sentidos são as portas do intelecto, sem elas o intelecto seria um tipo de quadro em branco, pois não teria nada. Na perspectiva empirista, o conhecimento é fruto das nossas experiências sensoriais. Porém, o pensamento hegemônico na história da filosofia não foi o de matriz empirista, mas sim o idealismo platônico, por isso os sentidos corporais foram marginalizados. Até mesmo na Estética, onde os sentidos são essenciais nas experiências com as obras de artes, não temos uma valorização de todos os nossos sentidos. O filósofo Alemão Kant produziu uma forte hierarquia dos nossos sentidos, em seu tratado de Antropologia no sentido pragmático. Nessa obra, os sentidos são divididos em duas classes: O tato, a audição e a visão são os sentidos de primeira classe, sendo o último, a visão, o mais nobre de todos os sentidos; o paladar e olfato são os de segunda classe. “Todos eles sentidos puros da sensação orgânica, como que muitas vias externas de acesso, que a natureza preparou para que o animal possa diferenciar os objetos“, nos diz Kant. Assim, para ele, os três primeiros conduzem o sujeito, por reflexão, ao conhecimento do objeto como coisa fora de nós, o que não acontece com os outros dois sentidos, o paladar e o olfato são subjetivos e não conseguem se descolar do sujeito. Em seu livro Crítica do Juízo, ele reforça essa hierarquia. O olfato, para Kant e para o restante da tradição filosófica pós-kantina, é o sentido mais enganoso, superficial e fugaz, é o último dos sentidos. O mais ingrato e o mais dispensável dos órgão de sentidos, por isso não compensa cultivá-lo ou refiná-lo. Na perspectiva kantiana é impossível e até risível pensar numa filosofia olfativa, pois, o olfato é um sentido suspeito, um sentido paradoxal, já que os odores não são objetivos. Existe uma impossibilidade de classificar objetivamente os odores. A tradição filosófica de Kant a Hegel excluíram da reflexão filosófica, incluindo da Estética, tudo relacionado ao olfato. Para eles, o olfato é incapaz de produzir conhecimento verdadeiro sobre o mundo, sobre a realidade, bem como, estabelecer uma relação com a beleza e, por consequência lógica, com nenhum tipo de arte. Mataram a perfumaria como arte dos odores. Para eles, o grande problema é que os odores são voláteis, fugazes, evanescentes demais, os odores se dissipam absolutamente e muito rápido impossibilitando a construção de algo a partir deste fenômeno efêmero. Entretanto, surgiu na história da filosofia um filósofo que produziu uma transvalorização do olfato. Em Nietzsche temos uma possível filosofia da diferença olfativa, porque com ele o nariz ganha seu espaço na história da filosofia, e o olfato é retirado da condição de último dos sentidos. No paragrafo §3 do Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche escreveu:

E que sutis instrumentos de observações são os nossos sentidos para nós! Por exemplo, o nariz do qual nenhum filósofo discorreu com a veneração e a gratidão devidas. O nariz é o instrumento mais delicado de que dispomos, capaz de registrar diferenças mínimas no movimento, o que nem sequer o espectroscópio marca. Atualmente só possuímos ciência enquanto aceitamos o testemunho dos nossos sentidos, enquanto armamos e aguçamos nossos sentidos ensinando-os a se dirigirem ao fim que nos propomos. O resto é somente um aborto que não é ciência, isto é, que é metafísica, teologia, psicologia, ou epistemologia, ou então é ciência da forma, teoria dos signos, como a lógica, ou lógica aplicada, como as matemáticas. Aqui a realidade não aparece nem sequer como problema, como tampouco se coloca a questão do valor que possui em geral um sistema convencional de signos, como a lógica“.

Nesse paragrafo temos a transvalorização, o olfato é elevado ao mais alto posto. Ao contrário da tradição de Kant a Hegel, para Nietzsche o nariz é capaz de produzir a mais fina flor da filosofia da diferença, pois ele é o instrumento mais delicado que temos e é capaz de registrar diferenças mínimas. Ele ainda acrescenta, com seu estilo peculiar e lapidar, para valorizar este sentido até então marginal na história do pensamento, as seguintes palavras, em Ecce Homo:

Eu fui o primeiro a descobrir a verdade, ao SENTI por primeiro a mentira como mentira – ao CHEIRAR… O meu gênio reside nas narinas“.

Ele não viu a verdade. Para Nietzsche, a verdade não se apresenta primeiro aos olhos, mas ao nariz, ele sentiu o cheiro da mentira. É o antiplatonismo nietzschiano se mostrando, pois se em Platão temos uma pedagogia do olhar, escrita no famoso Mito ou Alegoria da Caverna, no Livro VII da República, ela parte das sombras falaciosas da caverna para gradativamente conduzir os olhos para o sol, a verdade luminosa; em Nietzsche temos uma pedagogia do olfato. É possível e necessário cultivar e refinar o olfato para farejar a verdade, pois, muitas vezes, sentimos o cheiro da coisa e só depois conseguimos ver. Como o olfato sempre foi jogado para a margem da filosofia é com Nietzsche que ele ganha espaço, por isso, na história da filosofia, ele foi o primeiro a sentir o cheiro da mentira como mentira, e assim descobriu a verdade. A filosofia nietzschiana como uma filosofia olfativa. Nietzsche o cão farejador da filosofia, seu gênio reside nas narinas. Seguindo os escritos dele podemos dizer que existe uma inspiração canina na filosofia nietzschiana. Ao longo de suas obras é incrível a quantidade de alusão a cheiro, odor, perfume, nariz e coisas do gênero. Ele é o filósofo de nariz aguçado. Como um cão passeando pelo mundo cheirando o mundo. Nietzsche vai cheirando as verdades e mentiras da história da filosofia. Essa proposta de uma filosofia olfativa é novidade que surge com ele. Num processo de valorização daquele sentido desprezado e marginalizado ao longo da história do pensamento. Nietzsche propõe utilizar o olfato para sentirmos o mundo: o seus odores, seus perfumes, suas fragrâncias… Para ele o nariz constitui-se como um ótimo e delicado instrumento para descobrir mentiras… algo cheira mal, a verdade tem fragrância agradável enquanto que a mentira é nauseabunda.

No Ecce Homo, Nietzche escreveu, ao se referir ao seu livro Aurora, que com este livro ele iniciou sua campanha contra a moral. “Não que ele [o livro] tenha o menor cheiro de pólvora – nele se perceberão odores inteiramente diversos e muito mais agradáveis, desde que se tenha alguma finura nas narinas“. Só quem tem narinas apuradas poderá sentir os odores agradáveis presentes nesse livro, caso contrário não sentiram nada. Ainda no mesmo livro Ecce Homo, ao produzir um autocrítica ao seu livro O nascimento da tragédia, além de alfinetar o compositor Wagner, afirma que é necessário esquecer algumas coisas deste livro, e reafirma sua filosofia olfativa, dizendo que o livro “é politicamente indiferente, tem cheiro indecorosamente hegeliano, é impregnado em apenas algumas fórmulas com o  cadavérico aroma de Schopenhauer“, e de forma taxativa diz: e o Schopenhauer se enganou em quase tudo. Poderia seguir revelando o nariz apurado do filósofo Nietzsche. Como afirmou Kofman:

El arte en el que Nietzsche es maestro proviene a la vez de un don de la naturaleza (el olfato) y de una adquisición por medio de Vbung y de Erfahrung, las cuales son su condición. Poseer tanta sabiduría exige no sólo un buen olfato sino asimismo tener buena mano, tener entre manos, bien entre manos el arte al que nos dedicamos (ich hube jetzt in der Hand, ich habe die Hand dafür). Es decir, poseer la habilidad de captar (jene Filigrankunst des Greifens und Begreifeins), en sentido propio y figurado, poseer tacto para los matices (Finger fiir nuances). Al romper con el modelo tradicional del conocimiento especulativo que es el ojo, Nietzsche junta las metáforas unas con otras, tomando como modelo de su sabiduría los sentidos más devaluados por la tradición metafísica (el olfato, el tacto). Al ser aquélla de tipo instintivo, él inscribe de entrada dicha sabiduría en la animalidad, lo cual, lejos de descalificarla, le confiere la mayor seguridad pues, contrariamente a la ratio preconizada por los filósofos que siempre calcula mal, el instinto no está sujeto al error

Nietzsche ao produzir sua filosofia olfativa rompeu com a tradição filosófica que desvalorizava o olfato. Nele temos um tipo de intuição olfativa, temos que sentir o cheiro da verdade. Essa capacidade olfativa no animais é superior a capacidade visual, assim ao contrário da tradição kantiana que colocava a visão como o mais importante dos sentidos, em Nietzsche a capacidade de sentir os odores é mais importante do que o ver, pois sentimos os odores primeiro do que conseguimos enxergar.

Agradeço ao Nertan Silva-Maia, meu amigo e colaborador do Blog, pela ilustração intitulada CHEIRO DE VERDADE.

COMUNICAÇÃO E OPINIÃO ALHEIA

Não sofremos de falta de comunicação, mas ao contrário, sofremos com todas as forças que nos obrigam a nos exprimir quando não temos grande coisa a dizer”, respondeu Gilles Deleuze numa entrevista sobre filosofia, provavelmente ele tenha razão, não sofremos de falta de comunicação, mas, sim, sofremos com toda sorte de forças que nos obrigam a dá opinião sobre coisas que não temos competência ou não queremos opinar, pois não temos uma ideia formada sobre aquilo. Entretanto, estamos vivendo num império das opiniões, temos que dizer algo sempre que somos impelidos, questionados, provocados. O falatório e a tagarelice são as marcas do nosso tempo, principalmente, nas redes sociais. “No que você esta pensando?” nos questiona o Facebook a todo momento. Algumas pessoas acabam caindo na cilada e estão externado o “seu pensamento” a todo momento, mas, na maioria das vezes não são nem seus e nem tem relevância alguma o que dizem, são banalidades e futilidades. O silêncio seria mais eloquente e sensato. Não estou dizendo que as pessoas são fúteis ou banais, apenas constatando que devido as forças que vem de fora acabamos cedendo e falando bobagens, futilidades e banalidades. Essa terrível e terrificante entidade, a opinião alheia, não deveria ter nenhuma importância, já que a maioria das opiniões são infundadas, rasas, banalidades destituídas de conteúdo. Porém, muitas pessoas ficam profundamente incomodadas com o que os outros vão comentar sobre o que elas escreveram, falaram, fizeram, postaram, etc… Assim, pelo peso que atribuímos a opinião alheia, o outro de fato torna-se um inferno quando nos preocupamos com o que eles vão dizer. E, lamentavelmente, sofremos muito por causa dessa entidade, pois demoramos no processo de amadurecimento e por isso nos permitirmos ligar o botão do dane-se muito tarde, consequentemente amargamos muitos dias e noites convivendo com os fantasmas. Devemos levar em consideração apenas as opiniões daquelas pessoas que afetivamente admiramos, amamos e respeitamos, elas podem contribuir para a edificação dos nossos projetos e sonhos, uma vez que não somos ilhas para nos isolarmos de tudo e todos. Mas, a medida e a relevância dessa opinião quem poderá mensurar é apenas você. Precisamos avaliar se não estamos apenas sendo sugados pelo turbilhão da opinião alheia, e com isso aceitando entrar nessa roda viva esmagadora.

“A VERDADE NÃO SE DÁ, SE TRAI”

Existe uma visão comum que acredita que a filosofia, como amiga da sabedoria, se preocupa com a verdade, e o filósofo naturalmente tem uma predisposição pelo conhecimento verdadeiro, Aristóteles mesmo dizia que “todos os homens, por natureza, desejam saber“. Entretanto, essa visão naturalista e romantizada pode ser questionada, pois, as pessoas não querem a verdade, a verdade se impõe, ela é um ato involuntário. Essa ideia de que o filósofo é o amigo da sabedoria operacionaliza com duas variáveis irreais: primeiro não pensamos movidos por uma boa vontade natural e, segundo, não pensamos porque temos um método apropriado que nos faz pensar de forma clara e distinta. Ou seja, não pensamos por conta própria, só pensamos quando somos forçados, violentados, provocados, instigado. Assim, não é porque supostamente nascemos amantes do saber que pensamos. Na verdade, de acordo com Deleuze, “Proust considerava que a amizade é zero [no Philos de Philosophia]! Não só por conta própria, mas porque não há nada a se pensar na amizade. Mas pode se pensar sobre o amor ciumento. Esta é a condição do pensamento“. O pensar, como o sentir ciúme, é involuntário. Ninguém pensa por vontade própria, pensar não é um ato de boa vontade, e nem um resultado do uso adequado de um método bem elaborado, que indica os passos para o pensamento correto. O pensamento é um acontecimento em nós. O ciumento não pensa na possível traição da amada por vontade própria, ele é provocado por algo, Deleuze diria por um signo, que o força a pensar. Após o acontecimento que violenta o pensamento, e que provoca o movimento do pensar, não tem volta, a pessoa ciumenta que foi desterritorializada não tem mais escolha, sua paz foi roubada e involuntariamente vai surge um fluxo de coisas em sua mente, agora por necessidade ela precisa buscar a verdade. Por isso, o pensar torna-se uma condição de necessidade, e “pensar o necessário é pensar em termos de forças“. “Ela leva a pensar“, pois “há sempre a violência de um signo que nos força a procurar, que nos rouba a paz“. O signo é o motor do pensar, provoca a busca do sentido deste signo. Ele é sempre signo de um outro, que convoca o esforço de decifração do desconhecido. Assim, essa busca pela verdade se impõe, a verdade não é transparente, ela só vem a luz com a busca num esforço de decifração. O ciumento precisa e “quer interpretar, decifrar, traduzir, encontrar o sentido do signo” que lhe tirou do estado natural de estupor, de tranquilidade. Ele estava tranquilo e em paz apenas com seu celular em mão vendo fotos da amada, contemplando sua beleza, de repente percebe numa foto um dedo, um dedo estranho, não é dela. Este dedo é o signo, o dispositivo que o coloca em ação. Ficará horas tentando decifrar o enigma do dedo até descobrir a verdade. Ele, depois de muita tempo de investigação, lembrou que resolveu tirar um foto da amada com seu celular da tela do computador e aquele dedo era o seu dedo. Você pode até dizer que isso é doentio, sim, verdade, mas não esqueça pensar não é natural podemos dizer que pensar é uma doença, que nos tira do estado natural de tranquilidade, de paralisia, de estupor, de satisfação. Como afirma Deleuze insistentemente, “só procuramos a verdade no tempo, coagidos e forçados“, pois, a verdade é filha do tempo, da temporalidade necessária para o exercício da interpretação, decifração, tradução, encontro do sentido do signo que provocou o pensar. Assim, a relação do pensar com a ação do ciumento é emblemática, pois quando somos afetados por algum signo iniciamos uma investigação não voluntaria, mas necessária. É a ânsia pela verdade que movimenta o pensamento, como disse Deleuze: “a verdade não se dá, se trai; não se comunica, se interpreta; não é voluntária, é involuntária“. Mas, mesmo sendo involuntária, a verdade quando vem a luz nos liberta da violência inicial que nos roubou a paz. “Buscar a verdade é aprender”, é pensar e “só há pensamento involuntário, suscitado, coagido no pensamento, com mais forte razão  é absolutamente necessário que ele nasça”como aprendizado  (Deleuze, Diferença e Repetição).

Agradeço ao amigo e colaborador Nertan Silva-Maia pela ilustração intitulada “É VERDADE ESSA FLOR”, sigam ele no Facebook e Instagram .

RESISTÊNCIA E TRANSGRESSÃO NO CONTO DA AIA

O livro O Conto da Aia (The Handmaid’s Tele), de Marguaret Atwood, foi publicado na década de 1985, após muitos anos [2017] foi adaptado para outra base, tornou-se uma telessérie, mas, antes já tinha se tornado filme [1990] e operá [2000]. Este livro pertence ao gênero distópico da literatura contemporânea. Este gênero se caracteriza pela apresentação de uma estrutura social rígida, regime totalitários e autoritário na tentativa de manter a ordem social, com o uso da força e do controle das informações. Nas sociedades distópicas, o exercício do poder acontece com a criação de uma psicologia do medo, onde todos suspeitam de todos, e ninguém confia em ninguém. Além disso, as relações de poder são extremamente verticalizadas, nada de poder horizontal. Muitas vezes, as relações verticais são justificadas para manter a ordem em nome da paz, ou de um ser transcendental, ou de uma corporação, ou de um Estado, ou algo dessa natureza. Assim, se a verticalização do poder se justifica para manter a ordem, o uso da força se justificava para não voltar ao caos da situação anterior a grande guerra, ou da sociedade considerada como degenerada. Tolerância zero a qualquer divergência ou discordância. Os divergentes são torturados ou eliminados exemplarmente, pois não existe individualidade, no processo de subjetivação os sujeitos são forçados a se assujeitarem ao poder estabelecido. Outra característica deste gênero literário é o discurso pessimista, que alimenta uma visão desesperançada. Apesar disso, como nos ensinou Michel Foucault, onde acontece as relações de poder existe sempre resistência, e o ato de resistência busca mudar a situação de desesperança, resistência liga-se obrigatoriamente a esperança. Ele, o ato de resistência, é a tentativa de criar rotas de fuga para sair do sistema opressor, asfixiante, numa ação coletiva. Não existe resistência como ato individual. Nos últimos anos este gênero literário ganhou muitos títulos e, muitos além de livros dos delírios pós-apocalítico, também tornaram-se filmes ou séries televisivas, entre eles podemos citar: um pioneiro do gênero, no século XX, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; na sequencia, 1984, de Geoge Orwell; Fahrenheit 451, de Ray Bradbury; Jogos Vorazes, de Suzanne Collins; a trilogia de Veronica Roth, Divergente, Convergente e Insurgente; entre outros. The Handmaid’s Tele tem todas essas marcas, discurso pessimista, ordem de um patriarcado autoritário, processo de assujeitamento das pessoas numa rígida organização social. No caso do Conto da Aia temos: os comandantes (o alto escalão da sociedade, responsáveis pela administração da República) e sua esposas (usam vestidos verdes vibrante e são inférteis), as Martas (usam roupas verdes desbotadas, sem vida, opacas, são as  mulheres responsáveis pela organização da casa, limpeza, comida, etc.), as Tias (usam roupas marrons, são as mulheres que são responsáveis pelo treinamento das Aias); as Aias (usam roupas vermelhas, são as mulheres responsáveis pela reprodução da vida na sociedade – são os úteros do Estado Patriarcal). No período fértil as Aias são violentadas pelos comandantes na tentativa de engravida-las, num rito religioso esdruxulo. Este rito foi criado a partir de uma leitura bíblica inusitada. O texto bíblico encontra-se no livro de Gênesis capítulo 30, versículos de 1-3: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão eu morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Acaso estou eu no lugar de Deus que te impediu o fruto de teu ventre? Respondeu ela: Eis aqui minha serva Bila; recebe-a por mulher, para que ela tenha filhos sobre os meus joelhos, e eu receba filhos por ela“. O perigo das leituras fundamentalistas, são sempre leituras rasteiras e literais, que perdem a beleza poética e os traços da cultura onde o texto foi produzido. Os fundadores da nova ordem social, para justificar sua loucura, na montagem de um ritual religioso bizarro, leram o texto bíblico como se Raquel estivesse descrevendo uma posição sexual, e com isso explicando a Jacó como deveria transar com sua serva Bíla. Assim, durante o período fértil acontecia na casa dos comandantes da República de Gilead, um ménage à trois constrangedor. Na cama ficam a esposa sentada e a Aia deitada entre as pernas da Esposa do Comandante, enquanto ele ficava de pé próximo da cama penetra a Aia. O sobre os joelhos tornou-se essa cena ridícula repetida algumas vezes na série. Mas, o que Raquel queria dizer com essa expressão: sobre os meus joelhos? Quando olhamos para além do horizonte literal e contextualizamos o texto em sua cultura, perceberemos que o que Raquel estava dizendo era uma uma coisa simples do ponto de vista de sua cultura, pois, sem sombra de dúvida, ela estava dizendo apenas que adotará o filho de sua escrava como seu filho. A expressão faz parte do que se pode chamar direito consuetudinário da Mesopotâmia. Evaristo Eduardo de Miranda, em seu livro, “Corpo: Território do sagrado”, explica detalhadamente, ele nos diz que: “Na Bíblia, o filho ou a filha eram recebidos nos joelhos do pai por ocasião do nascimento, como um sinal de reconhecimento (Jó 3,12; Gn 50,23). Quando a mãe era substituída por uma escrava, o nascituro era posto sobre os joelhos da mãe, e não da escrava” (2007, p.81). Então não era um ménage à trois que Raquel estava sugerindo a Jacó, ela apenas anunciava a futura adoção do filho nascido de sua escrava. Ela estava sinalizando que reconhecia aquele filho como seu filho. A leitura sem contextualizar é sempre problemática e claudicante, e este tipo de leitura é a prática comum dos fundamentalistas, por isso o fundamentalismo é sempre deformador dos textos religiosos, pois retiram as raízes culturais da obra. Neste caso particular, a leitura tinha um interesse cínico, fundamentar uma prática “religiosa”, forjar um ritual bizarro. Nele apenas um participava por vontade própria: o comandante, uma vez que a esposa e a Aia participavam por obrigação. As Aias caso tentassem fugir eram violentamente punidas, em caso extremo enforcadas, pois, como únicas mulheres férteis da República, não podiam deixar de cumprir “seu destino biológico“. Não existe liberdade nesse patriarcado. Elas eram vigiadas o tempo todo. “Estamos em Gilead, ninguém foge“, nos diz uma personagem da telessérie…. Mesmo se constituindo como uma sociedade de controle absoluto, na República de Gilead existem transgressões e atos de resistência à ordem estabelecida, porém não podemos misturar essas duas coisas, pois, muitas vezes, as pessoas fazem uma relação mecânica entre esta duas categorias, como se fossem sinônimos ou semelhantes. Entretanto, existem diferenças e distancia abissais entre elas. As transgressões não são ações de resistências, no The Handmaid’s Tele ou Conto da Aia os comandantes são transgressores das regras apenas para a própria satisfação pessoal, não buscam e nem desejam mudar nada. Essa postura transgressora dos comandantes é o contrário do ato de resistência, que busca sempre criar rotas de transformação do sistema. Resistir é resistir ao poder. Assim, podemos dizer que todos os atos de resistências são também atos de transgressões, porém, nem todas as transgressões são atos de resistência. Isso é visível na Série televisiva que adaptou o livro de Atwood, pois existe um grupo de resistência funcionando no subterrâneo daquela sombria sociedade do patriarcado de Gilead, onde outrora era os Estados Unidos da América. Este grupo não aparece muitas vezes, mas sua ações pontuais são sentidas na superfície, como se fossem pequenas fissuras. Demonstrando que ato de resistência não acontece como ações ruidosas, são silenciosos, são pequenas fissuras. Este pequeno grupo salvam vidas do autoritarismo e da carnificina sanguinária da sociedade patriarcal. A autora como uma médica da civilização, como uma vidente, descreve os sintomas de uma doença que estamos sentindo. A doença do fundamentalismo fascista. Seguindo a leitura deleuziana, podemos dizer que Atwood é uma sintomatologista, ela nos mostra os sintomas dessa sociedade doente. Diagnosticando a doença do machismo, do fundamentalismo religioso e do fascismo que parece não morrer nunca. Sua vidência não é do tipo daquelas religiosas, onde o  vidente liga-se ao transcendente, mas sua vidência é imanente das forças reais que lutam no tecido social para se estabelecer. Assim, não se trata apenas de ver e diagnosticar, mas indicar modos de vidas a partir da luta entre essas forças. O livro não é um manisfesto feminista, mas revela as dores das mulheres numa sociedade centralizada no poder masculino. A autora apresenta uma contradição, as mulheres protagonistas de toda a narrativa são subjugadas pelos homens… E, o pior,  são elas exercendo o protagonismo no movimento subterrâneo de resistência, mas elas também ajudaram na edificação do sistema opressor. Na série, a esposa do comandante era uma intelectual que publicava livros para justificar a decadência da sociedade e depois foi amordaçada e seus livros proibidos, como de todas as mulheres, quando a nova ordem se estabeleceu. A telessérie, em sua primeira temporada, busca não reproduzir o livro, como uma boa adaptação, reorganiza o que temos no livro e no ato de criação cinematográfica produz situações para dar sequência. O cineasta não é alguém que apenas copia o que tem na realidade ou na literatura, as adaptações são criações inventivas. Assim, no final da primeira temporada, existem uma cena magnifica, pois representa a força criativa do cineasta e a capacidade de dar sequencia a história. É o momento da chegada da personagem Moira no Canadá. Ela com a ajuda do grupo de resistência consegue escapar da “cortina de ferro”, do patriarcado de Gilead. Ela escapa e é acolhida no Canadá profundamente receptivo. Em tempo de tantos nômades no planeta, essa cena de acolhida nunca foi tão oportuna, pois a questão dos refugiados é preocupante aqui no Brasil e no mundo. A personagem como refugiada de uma sociedade totalitária é recebida da forma como todos os refugiados de guerra ou políticos deveriam ser acolhidos. Ela parece não acreditar em tudo o que esta acontecendo, depois de anos de tratamento desumano, quando recebe um tratamento humanitário fica bestializada. O semblante da atriz é perfeito. O livro deixa essa possibilidade como algo possível, mas repleto de reticencias, a desesperança é maior que a esperança. As pessoas em geral não levam a sério os romances, pois são experiências do pensamento de alguém que imaginou tudo aquilo, entretanto, romancistas, cineastas, pintores, artistas de forma geral são sintomatologiastas, nos indicam sintomas de doenças que estão se desenvolvendo no tecido social. Deveríamos observar com mais atenção aquilo que estamos assistindo numa série, ou num filme, ou lendo em algum livro. Como falamos, Atwood é uma médica da civilização, e no seu romance distópico, ela sutilmente nos mostra como as transformações de uma sociedade democrática passa para um sistema autoritário. As mudanças não se dão de chofre, repentinamente, mas num movimento gradativo. E parece mesmo que as pessoas num estado democrático de direito, muitas vezes, parece que ficam adormecidas, quando acordam as leis que lhe garantia uma boa vida foram transfiguradas. Nessa telessérie ou no livro, a personagem principal fala algumas vezes isso, quando de repente, frente a brutalidade da nova vida, acordou. Mas, no caso dela era tarde, só a esperança de uma resistência a brutal situação poderia mante-la viva, pois resistir é re-existir. O que parece acontecer no final da primeira temporada.

[Agradeço ao amigo e colaborador deste Blog NERTAN SILVA-MAIA pela ilustração intitulada: FISSURAS DA RESISTÊNCIA]

PÂNTANOS, VULCÕES E DESERTOS

Não é novidade, como escreveu Charles Dickens, que “toda criatura humana constitui profundo segredo e mistério para todas as outras“, ninguém é transparente ou se conhece totalmente, temos em nós sempre sombras e zonas de profundo desconhecimento. Mesmo a pessoa que, aos quatro ventos, vive bradando que sua vida é um livro aberto, possue páginas lacradas e ninguém tem acesso a elas, pois, de acordo com Antoine de Saint-Exupéry, “em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis, vales de silêncios e paraísos ou jardins secretos“. Por isso, um dos grande dilema das pessoas é saber para quem podemos revelar este segredo que somos? Quem merece caminhar em nossas planícies, vales e jardins? Muita vezes, por precipitação mostramos mais do que deveríamos para algumas pessoas, em nosso entusiasmo acreditamos que estamos diante de alguém que podemos revelar esse paraíso interior, entretanto, o tempo revela que elas não tinham condições para perceber o valor do que estávamos mostrando, não conseguem valorizar e nem guardar para si o que viram e ouviram… “A riqueza que nós temos, ninguém consegue perceber” (Renato Russo, em sua canção O Teatro dos vampiros). Por isso, não podemos pensar que aquilo que temos de mais precioso será reconhecido pelos outros. Além do mais, junto com este lado luminoso, temos pântanos, vulcões e desertos assustadores em nosso universo interior… Assim, quando alguém compartilha de nossa intimidade por algum tempo, gradativamente acontece um movimento duplo: por uma lado, vamos mostrando um pouco dessa paisagem existente em nós e, por outro lado, vamos também descobrindo um pouco da geografia interior dessa pessoa. A topografia humana é marcada por jardins e pântanos, planícies e desertos, luz e sombra, que vão se descortinando na convivência diária. Exatamente por isso, precisamos ter muito cuidado. Ah! Como seria bom mostrar o que somos apenas para pessoas que não vão usar o que revelamos contra nós mesmo, como canta o Renato Russo, na canção Andreia Doria: “Quero ter alguém com quem conversar, Alguém que depois não use o que eu disse contra mim.”… Só este tipo de relação é alegradora, pois na maioria das relações tudo o que se diz e faz é usado contra você num dado momento, principalmente, quando nos contradizemos. Como se a contradição não fosse característica da condição humana, ser múltiplo. Entretanto, não podemos esquecer de duas coisas: A primeira coisa é que, como ensinou Marcel Proust, no Caminho de Guermantes, “uma pessoa não está… nítida e imóvel diante dos nossos olhos, com as suas qualidades, os seus defeitos, os seus projetos, as suas intenções para conosco (como um jardim que contemplamos, com todos os seus canteiros, através de um gradil), MAS É UMA SOMBRA em que não podemos jamais penetrar, para a qual não existe conhecimento direto, a cujo respeito formamos inúmeras crenças, com auxílio de palavras e até de atos, palavras e atos que só nos fornecem informações insuficientes e alias contraditórias, uma sombra onde podemos alternadamente imaginar, com a mesma verossimilhança, que brilham o ódio e o amor”.  As pessoas, como nós, nunca vão se mostrar totalmente, são sombras impenetráveis. E, a segunda coisa, é que temos esquemas pré-moldados para nos esquivar do que nos desagrada, e mecanismo de defesa do que nos assusta… Além disso: “Como diz Bergson, não percebemos a coisa ou a imagem inteira, percebemos sempre menos, só percebemos o que estamos interessados em perceber, ou melhor, o que temos interesse em perceber, devidos nossos interesses econômicos, nossas crenças ideológicas, nossas exigências psicológicas” (Gilles Deleuze). Por isso, não podemos e nem devemos nos mostrar para qualquer um, pois se esta pessoa não compartilha minimamente com nossa cosmovisão, vamos rapidamente nos decepcionar … Somos luz e sombra, somos beleza e horror, não, melhor dizendo, como poeticamente escreveu Lulu Santos:

Nós somos medo e desejo
Somos feitos de silêncio e som
Tem certas coisas que eu não sei dizer“.

Nunca saberemos o que assusta mais se o nosso silêncio ou nossas palavras; ou se nossos desejos ou nossos medos…

Somos multiplicidade… Como disse Nietzsche, em Gaia Ciência:

Eu sou vários! Há multidões em mim. Na mesa de minha alma sentam-se muitos, e eu sou todos eles. Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo.
Você nunca saberá com quem está sentado ou quanto tempo permanecerá com cada um de mim. Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa, nesse ritual sagrado eu lhe entregarei ao menos um dos tantos que sou, e correrei os riscos de estarmos juntos no mesmo plano.
Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento manter preso e que quando se solta me envergonha. Não sou santo, nem exemplo, infelizmente.
Entre tantos, um dia me descubro, um dia serei eu mesmo, definitivamente. Como já foi dito: ouse conquistar a ti mesmo.”

Como somos essa paisagem múltipla, o desafio que temos é descobrir quem somos, precisamos conquistar essa paisagem, num tipo de movimento de territorialização, pois só assim teremos condições de revelar para os outros quem somos de fato… O certo é que, não somos um, somos vários e, isso é problemático para o tipo de organização social que vivemos. No modelo de sociedade que vivemos,  as relações humanas buscam unidade, segurança e identidade e somos sempre multiplicidade, incerteza e diferença. E só quando conseguimos ver mais beleza na diversidade, quando as múltiplas paisagem não nos assustam, poderemos conviver neste mundo que sempre foi diverso e múltiplo. A palavra chave é respeito, precisamos respeitar e ser respeitados em nossas diferenças, pois se só enxergamos pântanos e vulcões nos outros as relações serão impossíveis. Os vales, as planícies e jardins precisam aparecer mais do que os pântanos, vulcões e desertos, pois nunca somos inteiramente uma coisa ou inteiramente outra, somos grandezas e mazelas, virtudes e vícios, heróis e bandidos, sonhos e pesadelos…

[Agradeço ao amigo Nertan Silva-Maia pela ilustração intitulada MUTAÇÕES EM MIM]

CARTAS E OUTROS TEXTOS GILLES DELEUZE

Vinte anos depois do falecimento do filósofo francês Gilles Deleuze temos em mãos um novo livro dele publicado em Paris, em 2015, pela editora Minuit, e no Brasil, em 2018, pela N-1 Edições. Agora no conjunto da produção filosófica de Deleuze temos cinco livros montados como coletâneas de textos, sendo que dois foram organizados pelos próprio filósofo, são eles: “Conversações”, publicado em 1990; e “Crítica e Clinica”, publicado em 1993; e os outros três organizados pelo pesquisador David Lapoujade. As duas primeiras obras póstumas foram intituladas “A ilha deserta e outros textos”, publicado em 2002; e “Dois regimes de loucos textos e entrevistas”, publicado em 2003. Para maioria dos estudiosos e curiosos do pensamentos deleuziano, essas duas obras já tinham selecionados todos os artigos, ensaios, entrevistas, palestras dignos de publicação, pois o primeiro livro reuniu os textos do período de 1953 a 1974, e o segundo os textos de 1975 a 1995, ano da morte do pensador, assim parecia que não existia mais nada significativo da produção deleuziana que seria publicado. Mas, em 2015, David Lapoujade lançou um terceiro livro intitulado “Cartas e outros textos”, essa obra divide-se em três blocos: I. Cartas; II. Desenhos e textos diversos; e III. Textos de Juventude. Ao contrário das outras obras póstumas, essa nova obra não tem um ensaio inédito que nomeou a coletânea, nela o carro chefe são as cartas do Deleuze. A primeira vista, os leitores de obras filosóficas podem pensar que essas cartas selecionadas são do gênero das cartas filosóficas, comum na história da filosofia, pois existe uma tradição epistolar significativa com cartas densas e explicativas de pontos do sistema de pensamento do filósofo escritor. Um bom exemplo dessa tradição são as 83 cartas publicadas do Spinoza, nelas existem intenção deliberada do pensador para explicar algumas questões ou problemas levantados por um interlocutor. Assim, mesmo não sendo uma produção pública, essas cartas foram escritas intencionalmente e quando ganham a dimensão pública, numa organização tipo livro, elas contribuem na compreensão do sistema filosófico do pensador. Entretanto, lendo as cartas deleuzianas, é visível que elas não transcendem o caráter privado, elas foram escritas  sem nenhuma intensão de serem publicadas. Além disso, existe uma revelação do próprio organizador que Deleuze não atribuía nenhuma importância filosófica as suas cartas e nem as que recebeu, por isso, não arquivou nenhuma das cartas recebidas. Sendo assim, para que e por que publicar essas cartas? Já que o próprio autor não considerou essas cartas como parte de sua produção filosófica. A maioria das cartas publicadas nesse livro tocam em miudezas não importantes para o sistema de pensamento produzido pelo pensador. Podemos colocar em parenteses apenas as cartas dirigidas a Félix Guattari, essas são interessantes, pois nos deparamos com um fértil debate sobre a gêneses do livro o Anti-Édipo. Além dessas cartas, outros dois textos relevantes são a longa transcrição da entrevista inédita de Deleuze e Guattari para Raymund Bellour, e o curso sobre Hume (1957-1958), foram pontos fortes da organização, mesmo não sendo diferentes daquilo que já foi publicado em outras obras deleuziana. No fundo, mesmo essas cartas a Guattari, a Entrevista e o Curso, são mais do mesmo para quem conhece o conjunto dos livros publicados até hoje. Sei que não sou o único a ficar perplexo com essa publicação que pouco ou quase nada acrescentou a compreensão do sistema de pensamento do Deleuze. Desta forma, podemos questionar: em que medida devemos ou como devemos pensar essas cartas?Qual a importância dessa publicação para o conjunto das obras deleuzianas? Caso não consigamos respostas para essas e outras questões, podemos suspeitar que o que temos nessa “nova” publicação são apenas textos e ideias requentadas com duplo interesses: comercial e de tietagem “filosófica’.