A VIDA E SUAS MÚLTIPLAS RAMIFICAÇÕES

A VIDA E SUAS MÚLTIPLAS RAMIFICAÇÕES

Somos multiplicidade, vivemos sempre em grupos, que são constituídos também de multiplicidade, não existe grupo homogêneo. A vida grupal é sempre heterogênea, mesmo a família primeiro núcleo de existência não é uma formação planificada. Somos como esta árvore rizomática da gravura. Somos um emaranhado de relações entranhados uns nos outros do nascimento a morte. São múltiplas as entradas em nossas vidas, elas se dão a partir dos muitos encontros bons e agradáveis ou ruins e desagradáveis. Nos transformamos, como uma árvore vamos crescendo e multiplicando nossa forma e estrutura. Além disso, a multiplicidade que somos, e que constitui o grupo é, ao mesmo tempo, que o faz belo. Só na composição diversa aprendemos muito. A diferença nos ensina. Não é possível, não existe de fato um grupo homogêneo, pois, como escreveu Deleuze “cada um, como todo mundo, já é muitos, isso é muita gente”, assim podemos dizer: somos multiplicidade. Temos que reconhecer, para viver temos que conviver com diferentes. Em todos os grupos sociais temos diferenças políticas, religiosas, de gênero, de etnia/raça. Convivemos, sei que não é fácil, com grupos politicamente antagônicos liberais, neoliberais, socialistas, social-democratas, comunistas, anarquistas e até os indiferentes. A dificuldade é porque os grupos muitas vezes se colocam como superior ao outro, e ninguém é superior a ninguém pela cor ideológica, religiosa, ou cor da pele, ou conta bancária. Aprender a respeitar essas diferenças é básico para o convívio social. Não acredito naquela expressão badalado por muitos que dizem: sua liberdade termina onde começa a do outro. O outro não pode ser barreira para minha liberdade. Penso que minha liberdade só existe quando o outro também for livre, o outro potencializa minha liberdade, não é fronteira limitadora. Assim, a vida livre só acontecerá quando todos dentro do grupo forem livres. Ninguém podemos aceitar num grupo plural a censura, ninguém pode se sentir amordaçado. A liberdade de pensamento e expressão deve ser o princípio de todo grupo social numa democracia, mas este direito não pode ser justificativa para agredir o diferente. A marca da convivência madura está no respeito. Se queremos mesmo que este grupo se mantenha precisamos respeitar todos.

Agradeço ao Nertan Silva Maia, amigo e colaborador deste blog, pela ilustração: Sem título. Grafite s/ papel Canson, 21x29cm. Nertan Silva Maia, 2016.

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RAÇA HUMANA – GILBERTO GIL

Gilberto Gil, um dos maiores cantores da MPB, dispensa apresentação, poeta, compositor, ativista da cultura. Este ano estamos completando os trinta e cinco anos do seu álbum Raça Humana. Esta produção emblemática, merece uma lembrança especial, pelo conjunto das músicas apresentadas pelo grande Gil. No Brasil, o ano de 1984 marcado pela explosão da onda do Rock Nacional, este medalhão da MPB lança uma obra prima. Este é um dos mais importantes álbuns daquele ano. Gil mostrou que aos 42 anos podia se reinventar, presentando para os seus fãs, rock, blues, reggae, músicas de alto nível, poesias de rara beleza e com pitadas de sensualidade incrível. Das composições imortais temos a Vamos Fugir, regravada vinte anos depois do seu lançamento pela banda Skank; Pessoa Nefasta, Índigo Blue e Tempo Rei são os principais sucessos deste lindo e encantador álbum. São quarenta e um minutos de pura magia. As composições nos fazem movimentar numa viagem mental magnifica. Vamos “gilbertiar” entrando em algumas estações:
Primeira estação: A RAÇA HUMANA, dá nome ao álbum e nos remete à obra da criação. A raça humana é uma semana trabalho de Deus… O realismo poético nos revela as contradições e a paradoxal condição humana dizendo: “é ferida acessa, uma beleza, uma podridão, o fogo eterno e a morte, a morte e a ressurreição”. Gil ainda canta a beleza da raça humana na produção da arte. “A raça humana risca, rabisca, pinta, a tinta à lápis, carvão ou giz”, na saudade do paraíso perdido por Adão, carregamos o desejo do retorno ao oásis de Deus.
Segunda estação: O TEMPO REI é a expressão da temporalidade humana. É uma oração de reconhecimento que precisamos de paciência para viver. Gilbertianamente ele canta:

“Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo socorrei

Mães zelosas, pais corujas
Vejam como as águas de repente ficam sujas
Não se iludam, não me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo”

Somos criaturas temporais, vivemos num determinado tempo e por pouco tempo. Somos seres históricos. O tempo define tudo, “Água mole, pedra dura Tanto bate que não restará nem pensamento”, por isso transforma as velhas formas de viver em novas. O tempo nos faz sempre novos. O problema são os preconceitos cristalizados, assim dessa estação do tempo Gil nos leva para preconceitos arraigados na alma de algumas almas sebosas, e depois pessoas nefastas.

Terceira estação: MÃO DA LIMPEZA a grande questão social brasileira, o racismo. Gilberto Gil nos faz pensar sobre numa bela composição.

O branco inventou que o negro
Quando não suja na entrada
Vai sujar na saída.

[…]

Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava
Imagina só
O que o branco sujava
Imagina só
Eta branco sujão”.

Quarta estação: duas músicas que podemos dizer nos faz pensar a sensualidade da musicalidade do Gil. Nas letras de ÍNDIGO BLUE e VAMOS FUGIR temos uma beleza e uma sensualidade poética incríveis. A delicadeza na construção da utopia da vida a dois, como se conduzisse seus ouvintes para o paraíso pedido da criação humana. Na primeira ele escreveu a beleza do corpo feminino:

“Sob o blusão, sob a blusa
Nas encostas lisas do monte do peito
Dedos alegres e afoitos
Se apressam em busca do [bico] do peito
De onde os efeitos gozosos
Das ondas de prazer se propagarão
Por toda essa terra amiga
Desde a serra da barriga
Às grutas do coração”

Depois a presença do corpo masculino:

“Sob o blusão e a camisa
Os músculos másculos dizem respeito
A quem por direito carrega
Essa Terra nos ombros com todo o respeito
E a deposita a cada dia
Num leito de nuvens suspenso no céu
Tornando-se seu abrigo
Seu guardião, seu amigo
Seu amante fiel”

A construção poética nos remete ao casal original da tradição judaico-cristão. Na sequencia parece que o projeto não funcionou, por isso foi necessário criar uma rota de fuga. A saída é fugir. A composição Vamos Fugir continua na mesma pegada de sensualidade. Como num grito de alerta Gil canta: Vamos fugir deste lugar. Tô cansado de esperar. Na certeza que esta com a pessoa certa, como sua Eva, ele acrescenta: vamos fugir para

“Qualquer outro lugar comum
Outro lugar qualquer
[…]
Onde haja só meu corpo nu
Junto ao seu corpo nu”

O retorno ao paraíso.

Recebemos um presente deste negro, baiano, poeta e músico da vida humana. Ele começa com a Raça Humana e termina no Paraíso. Gil refundando o mito da criação onde todo casal simbolicamente são Adão e Eva.

 

Agradeço ao colaborador e amigo, Nertan Silva-Maia, pela ilustração DE ONDE VEM A HUMANIDADE.

 

DOIS ANOS SEM BELCHIOR

Hoje, dia 30 de abril de 2019, completam dois anos do falecimento do poeta cearense Antonio Carlos Belchior, ao longo deste mês algumas rádios, sites, teatros fizeram homenagens ao poeta. No Rio de Janeiro, no Teatro João Caetano, aconteceu de 05 a 28 de abril, um musical intitulado Belchior: ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Como o diretor e organizador do evento, Pedro Cadore, no material de divulgação, explicou: o espetáculo não tinha intenção representar o cantor, mas criar um diálogo entre o cantor e a plateia, a partir do personagem o Cidadão Comum.  Aqui no blog queremos apenas registrar nossa admiração por Belchior, apresentado alguns versos imortalizados por ele nas seguintes canções:

1. ALUCINAÇÃO

“A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais”

“Amar e mudar as coisas
Me interessa mais”

2. CORAÇÃO SELVAGEM

“Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja
Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo tenho pressa de viver”

“E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
E arriscar tudo de novo com paixão
Andar caminho errado pela simples alegria de ser”

3. SUJEITO DE SORTE

“Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro”

4. APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO

“Não se preocupe meu amigo
Com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente
Quer dizer
Ao vivo é muito pior”

5. VELHA ROUPA COLORIDA

“Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era jovem e novo
Hoje é antigo
E precisamos todos, todos rejuvenescer”

6. NA HORA DO ALMOÇO

“Cada um guarda mais o seu segredo,
A sua mão fechada, a sua boca aberta,
O seu peito deserto, a sua mão parada,
Lacrada, selada, molhada de medo”

7. COMENTÁRIOS A RESPEITO DE JOHN

“Sonho e escrevo em letras grandes (de novo)
Pelos muros do país”

8. DIVINA COMEDIA HUMANA

“Deixando a profundidade de lado
Eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia
Fazendo tudo e de novo dizendo sim à paixão, morando na filosofia

Eu quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno
Viver a divina comédia humana onde nada é eterno”

9. PARALELAS

“Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel, o que é paixão”

10. PEQUENO PERFIL DE UM CIDADÃO COMUM

“A morte o carregou, feito um pacote, no seu manto
Que a terra lhe seja leve”

11. PALCO SECO

“E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês”

Agradecimento especial ao NERTAN SILVA-MAIA, amigo e colaborador deste blog, pela caricatura do Belchior.

VIVER ENTRE NOITES E DESERTOS

VIVER ENTRE NOITES E DESERTOS

A letra da música Lanterna dos afogados começa dizendo:

“Quando está escuro

E ninguém te ouve

Quando chega a noite

E você pode chorar

Há uma luz no túnel

Dos desesperados

Há um cais de porto

Pra quem precisa chegar”

Herbert Viana revela que essa música foi  inspirada na vida de mulheres de pescadores, que ficam todas as noites aguardando o retorno dos seus maridos das perigosas pescarias do alto mar. Algo singular, que com a produção artística tornou-se universal. Nela o compositor traduziu e sintetizou, a partir da vivencia dessas mulheres dos pescadores, alguns dos mais potentes sentimentos humanos: a angústia, o desespero e a esperança. A angústia e o desespero das noites solitárias e frias, onde ninguém pode nos ouvir. Onde podemos chorar. A noite como representação do deserto de nossas almas, a expressão do próprio deserto existencial. A vida é um projeto subjetivo e intransferível, ninguém pode viver a vida de ninguém. Temos apenas a nossa vida para viver. Nas noites e nos desertos podemos chorar e com isso quem sabe aliviar um pouco da angústia e do desespero, da sensação de abandono. Mas, a vida não se reduz a isso, no deserto temos oásis e, também, nas noites escuras temos uma luz sinalizando a existência de um porto. Existe um porto onde podemos abandonar nossa solidão, onde podemos ancorar e compartilhar um pouco de nossas angústias e medos existenciais. O nome deste porto é amor. Essa letra revela a angústia das mulheres dos pescadores do alto mar, que todos as noites ficam no cais do porto na expectativa de rever seus amados retornando após uma noite de trabalho. Elas com as lanternas nas mãos sinalizam para os seus amores onde fica o porto seguro, local do descanso e quem sabe o de esquecer os perigos vividos no alto mar. A vida é perigosa, nos diz o grande mineiro Guimarães Rosas. A postura dessas mulheres foi poeticamente descrita por Herbert Viana, nos seguintes versos:

“Eu estou na Lanterna dos Afogados

Eu estou te esperando

Vê se não vai demorar”

Elas ficam com as lanternas nas mãos sinalizando a direção do amor, na esperança do retorno breve do amado. Ação movida pelo sentido. Podemos até reconhecer que a vida é curta, mas também temos que aceitar que as noites são longas e frias, não só para essas mulheres dos pescadores, mas para todos nós que de uma forma ou de outra sentimos a angústia do viver. A vida apesar de sua brevidade, nas longas noites frias e desérticas, poderá ter sentido quando temos lanternas sinalizando um cais de porto para chegarmos, depois uma longa e cansativa viagem. Afinal, viver não é só suportar sofrimentos das noites e desertos da vida. A vida é também oportunidade para vivermos as alegrias, que aumentam nossa potência de agir; assim, precisamos manter os olhos bem abertos para enxergarmos as luzes das lanternas dos afogados nos indicando um porto e, ao mesmo tempo, devemos lançar nossas luzes para indicar o cais de porto que somos.

Quero agradecer ao amigo e colaborador Nertan Silva-Maia pela ilustração intitulada LUZ NO CAIS,

CONSUMO, USO E ABUSO: CONSUMIR A VIDA OU VIDA PARA CONSUMIR

Não é novidade que nosso mundo é praticamente bidimensional: produção e consumo. Somos produtores e consumidores, mais consumidores do que produtores e, além disso,  raramente somos usuários conscientes e responsáveis. Produzimos e consumimos sem pensar muito nos impactos dessas ações, mas, Martin  Buber faz uma diferenciação importante entre um e outro, ele escreveu que “o homem, como produtor, tem, naturalmente, muito mais disposição para unir-se ativamente aos seus semelhantes do que o homem como consumidor”, pois o homem na posição de agente produtivo não o faz pensando apenas em si, ao contrário, daquele que numa posição passiva pensa quase exclusivamente em si. Porém, existe neste jogo social, entre o produtor e o consumidor um parasita, o atravessador. Como mediador este agente parasitário é o que tem menos empatia para unir-se ativamente com os seus semelhantes. Produtor, atravessador e consumidor a tríade do mundo. No momento quero pensar um pouco sobre as implicações  possíveis entre consumo, consumidor em seu uso e abuso.  Consumir é descartar, produzir lixo, assim o consumidor é um produtor de lixo. Não somos educados para re-utilizar as coisas, apenas para desejar, consumir e descartar. Vivemos num mundo dos descartáveis, em múltiplos sentidos. O mundo do consumo é também o mundo do descarte. Não são só as coisas que são descartáveis, na nossa sociedade consumista tudo é descartável: coisas e pessoas, pessoas que se tornam coisas, coisas que muitas vezes tem mais valor que pessoas. Nessa dialética da coisificação das pessoas e das coisas que são tratadas com mais dignidade do que pessoas temos a sensação que estamos vivendo numa sociedade adoecida. Numa grave enfermidade do espírito e, o pior, não sabemos ao certo qual remédio temos que tomar para nos curarmos deste mal. Nessa movimentação do uso e abuso das coisas e das pessoas, constatamos que a durabilidade das relações entre as pessoas são semelhantes ao uso dos copos e talheres de plásticos. O mundo do consumo é o mundo das efemeridades. Nos abusamos rápido das coisas, temos urgência em ter o novo. Novo objeto, nova amizade, novas relações. Compramos hoje e amanhã (figurado ou real) já falamos que estamos abusados daquele objeto ou daquela pessoa. Neste mundo dos descartáveis, não temos a mesma percepção temporal de outrora. Nossa percepção temporal hoje é muito dinâmica. As coisas se tornam obsoletas muito rápido. Mas será que tudo entra nessa dinâmica feroz e diluidora? Será que existem coisas não corroídas por essa ordem do uso e abuso?  Existem outras coisas que no manuseio diário não cai no abuso? Há algo que se renova no fluxo do tempo? Parece que quando nascemos  somos lançados numa dinâmica existencial incrível, entramos num rio de algumas poucas coisas inexoráveis, crescimento biológico, envelhecimento e morte, que vamos passar com ou sem a nossa vontade e, ao mesmo tempo, entramos num mar da contingência.  Entretanto, existem coisas que mesmo sendo contingentes se lançam num patamar de essenciais para e na vida, quase como algo que sem o qual a vida não continuaria. Como se fossem naturais e necessários. Mesmo estando na ordem das coisas fluidas, são tratados como permanentes e fundamentais. Acredito que a maneira como usamos, cuidamos, tratamos os celulares e a internet são paradigmáticos neste sentido. O cuidado e carinho como as pessoas lidam com essa máquina e a maquinaria é impressionante, algumas pessoas se sentem uma ligação tão intima com eles que não parecem objetos externos ao corpo, mas uma parte corporal, ou um tipo de prótese vital. Não conseguem se desvencilhar deles um instante… E o apego no uso contínuo e constante não produz abuso, pode até desejar uma prótese mais nova, mais atual, mais sofisticada, mas não consegue nem pensar a vida sem ele. Dia e noite deslizando o dedo carinhosamente naquele objeto, num gesto de carinho e atenção, algo que pode gerar até ciumes em alguém, que desejaria aquele carinho e atenção dedicada ao objeto. No manuseio dele ligado a rede mundial de computadores, investimos muito tempo em coisas fúteis… Nossa ligação com essas próteses tornaram-se mais viscerais com o aprimoramento da internet… Celular e internet, duas próteses que conseguiram dar um salto das coisas contingentes para coisas essenciais, e é estranho a forma como as usamos sem abusar, ao ponto de algumas pessoas não conseguirem imaginar vida sem elas. Não nego que  a máquina e a maquinaria, que o celular e a internet, são invenções importantes e facilitadoras da vida… porém, não podemos fechar os olhos para os problemas que surgiram após seus adventos. Existe uma escravidão, a maquina inventada para auxiliar a vida conseguiu escravizar muitos. A linha entre  liberdade e escravidão, entre virtude e vício é muito tênue. O uso em excesso nos faz passar dessa linha e de repente atravessamos e deixamos nossa liberdade do outro lado. Não dominamos mais a situação, somos dominados, controlados, manipulados, escravizados. Usamos sem jamais nos abusarmos daquilo, como todo viciado que nunca se cansa do seu objeto de prazer. Todo vício é escravizador.  Usamos sem limite aquilo que é objeto de desejo. Abandonar um vício não é coisa fácil, só com muito esforço, determinação e dedicação conseguimos superar diariamente um vício. O lema dos alcoólatras anônimos que recomenda ao viciado que evite o primeiro gole, serve de referência para qualquer tipo de vício. Para deixar de se escravizar temos que evitar o próximo contato com o objeto de prazer, caso contrário nunca vamos deixar a condição de escravo, pois não nos abusamos e seguimos usando, usando, usando infinitamente. São horas de devota atenção e cuidado. Num apego tipicamente adoecedor, nosso apego a essa prótese está numa proporção inimaginável. Algumas pessoas mesmo em situação que deveria abandonar a prótese para fazer algo mais urgente, mantém em mãos o objeto filmando outra pessoa em risco de morte, seja afogando numa lama ou preso numa ferragem. O assustador é que o agente motivador dessa ação [ou da inação de salvação] são o sucesso do vídeo na rede mundial de computadores, o desejo de ver seu vídeo sendo curtido e compartilhado por milhares nas redes sociais. O uso e o abuso do celular é sem dúvida um caso de patologia na sociedade atual.

Quero agradecer ao Nertan Silva-Maia, amigo e colaborador deste Blog, pela ilustração intitulada LIKE.

A FETICHIZAÇÃO DOS SEXAGENÁRIOS

Circula pelas redes sociais um artigo intitulado “Os sexalescentes do Século XXI”, atribuído a Miriam Goldenberg, texto bem escrito, que à primeira vista, tem uma doçura e leveza encantadora, porém, após ler e compartilhar, um amigo me fez um questionamento: não existem subliminarmente neste texto uma defesa a reforma da previdência? Essa indagação acertou-me com uma pedrada na cabeça, a doçura inicial foi se perdendo e em seu lugar surgiu um gosto amargo na boca. Após essa intercessão violenta, fui reler o artigo de Goldenberg, e numa segunda vista, meu desejo foi “descompartilhar” o que antes havia compartilhado. Como ensina Deleuze, só pensamos quando somos violentados por um signo, ele serve de um intercessor na produção do pensar, e foi exatamente o que aconteceu, o signo questionador do meu amigo colocou meu pensamento em movimento. Aqui quero compartilhar um pouco do que pensei após uma leitura mais atenta. Podemos começar com algumas indagações: A quem interessa essa visão romântica dessa nova faixa etária? O que esconde esta fetichização dos sexagenários? Quais foram os perversos e amargos “não-ditos” deste doce e suave veneno? Não quero ser injusto e nem quero cometer uma violência ao objetivo da autora, pois ela deixa claro logo no inicio que essa nova faixa etária social, o sexalescente, está restrito a um grupo social que teve uma vida razoavelmente satisfatória. Assim, os advogados do texto poderiam dizer que o artigo não tem pretensão universalizante, que ela está apenas sinalizando para uma mudança singular de um grupo social dentro do continente Brasil. Goldenberg está falando de uma transformação comportamental num brasil e não do Brasil. Porém, inicialmente responderia que ela poderia e deveria ter dado ênfase a essa singularidade de sua análise, eliminando assim o risco dos leitores, deste mundo apressado e dinâmico das redes sociais, cometerem o equívoco de generalizar o que não é generalizável. A própria comparação com a adolescência é no mínimo, por uma lado, temerária; e, por outro, apenas revela o que sabemos a adolescência também, quanto foi “inventada”, era prerrogativa de uma elite, os filhos dos trabalhadores do campo ou da cidade saiam da infância para o mundo adulto do trabalho. Hoje naturalizamos o que não é natural, pois a divisão ou classificação do mundo social por idade na forma que conhecemos é coisa recente. Não existe dúvida que a idade e o sexo são princípios de classificação social, pois as comunidades tribais já utilizavam desse instrumento para fazer sua divisão social do trabalho, entretanto, idade e sexo não são coisas ou objetos dados na e pela natureza, são construções sociais, formas de atribuir funções e responsabilidades dentro de uma dada sociedade. Então não podemos, sem cometer anacronismos, atribuir a nossa classificação etária para povos muito antigos. Essas divisões que conhecemos e compartilhamos são nossas, foram convenções produzidas por nossa atual sociedade, as divisões numerais da escala de idade foram categorizadas nominalmente: infância (0 a 11), adolescência e juventude (12 a 21), fase adulta (21 a 60) e Idosos (ou terceira idade, depois dos 60 até o fim da vida), as fronteiras entre essa classificação são legalmente estabelecidas, pois em cada fase temos responsabilidades diferentes. No Brasil temos até dois estatutos específicos: O Estatuto da Criança e Adolescente e o Estatuto do Idoso (ou da terceira idade). Além dessa classificação etária parametrizada pela legislação, temos recentemente uma divisão geracional, ainda não conhecida por todos e para muitos não existe clareza quando começa uma geração e termina a outra. Essa classificação não é “universal”, para exemplificar, podemos ver a classificação estadunidense das gerações da seguinte forma: Baby Boomers – 1945 – 1964; Geração X – 1965 – 1979; Geração Y – 1980 – 1994; Geração Z – 1995 – Atual; e a classificação brasileira que segue a seguinte divisão: Baby Boomers – 1945 – 1964; Geração X – 1965 – 1984; Geração Y – 1985 – 1999; Geração Z – 2000 – Atual. Essas definições não são naturais, são convenções sociais que funcionam dentro de uma maquinaria social especifica. Pode parecer ou até soar estranho, mas a contagem dos anos para definir a idade das pessoas nem sempre foi importante. Não existia uma preocupação em registrar os filhos no momento do nascimento e nem uma prática generalizada de comemorar o dia do aniversário com festas. Essa prática de registro de nascimento só se consolidou socialmente no século XX, e foi necessário um dispositivo legal para obrigar os pais a registrarem seus filhos, entretanto, ainda na metade do século passado era comum pessoas nascerem e serem registradas depois de muitos anos, por isso não é incomum mesmo hoje encontrar pessoas com divergência de datas de nascimento. Antes de existir o registro oficial num cartório civil, o que tínhamos era o registro de batismo nas paróquias. Este documento tinha uma função social importante, e até hoje é usado como documento para efeitos de aposentadoria. Porém, mesmo os batistérios não são tão exatos, pois muitas comunidades só recebiam as visitas dos padres para realizarem os batizados em períodos muito longos até mais de anos. Algumas vezes os pais não tinham certeza do dia, mês e ano do nascimento do filho, assim colocavam uma data qualquer. Mas isso, principalmente nas classes sociais baixas, pois na elite a história era outra. O historiador francês, Philippe Ariès, em seu livro História Social da Criança e da Família nos mostra como a sociedade se transformou em relação ao cuidado com as crianças a partir do século XVIII, e como gradativamente essa preocupação, o cuidado e carinho com elas foi traduzido na prática de registrar o nascimento como uma data relevante e especial. Este comportamento e sentimento foram ganhando corpo social. Ariès revela que até o século XVIII a infância era curta, com o surgimento dessa nova pratica de cuidado com a infância, temos uma dilatação da infância, porém não para todas as crianças, apenas para os filhos homens da nobreza e da burguesia, pois as crianças pobres e as mulheres continuavam com uma infância reduzida. Os filhos dos trabalhadores e dos camponeses, que não frequentavam as escolas, rapidamente entravam para o mundo do trabalho, e as mulheres de ambas as classes após a “maturidade corporal” (compreenda aqui ter a primeira menstruação) tinham seu casamento arranjado. Então a infância dilatada no século XVIII e a adolescência inventada no século XX não envolviam todos, apenas uma porção da sociedade, então essa nova faixa etária, o sexalescente, apenas repete o que sabemos da infância e da adolescência, é um fenômeno restrito a um grupo social. Entretanto, poderíamos esperar uma atitude diferente de alguém que resolveu registrar essa inovação, pois temos um volume de conhecimento suficiente que nos habilita fazer uma crítica/teoria e uma clínica/prática adequada da nossa realidade sociocultural. A autora poderia sem economia de palavras deixar claro que apenas uma elite participa dessa mudança etária. Assim, poderíamos levantar outras questões: Quem são os excluídos deste paraíso etário? Onde podemos encontrar os excluídos? Não é difícil responder a essas questões, basta olhar com atenção. Mas, no fundo o que podemos perceber mesmo é que a criação dessa nova faixa etária apenas revela ainda mais a separação abismal existente na vida social brasileira, é mais um elemento de distinção social. Se este novo grupo, os sexalescentes, “nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram gozam plenamente cada dia, sem medo do ócio ou solidão”, a maioria dos sexagenários, os sobreviventes, ao contrário, pensam e sonham se vão conseguir um dia se aposentar. Longe do paraíso dos sexalescentes, os pobres sexagenários chegam a essa idade porque são fortes e resistentes, pois, como se diz, “no Brasil, pobre vive é de teimoso”, a luta diária pela sobrevivência impõe um esgotamento físico e mental incalculável, podemos até dizer que a desigualdade social se revela de forma mais dura para os sexagenários, que foram abandonados pelo Estado durante a vida, e são jogados a própria sorte na velhice. Fico imaginando a reação dos sexagenários que labutaram nos canaviais, nas carvoarias, nas rodas de quebradeiras de coco, na floresta amazônica, nas industrias insalubres, etc… ouvindo essa alegre idade dos sexalescentes. Nas grandes cidades brasileiras, se estivermos atentos, podemos notar homens e mulheres com cabelos brancos e rostos marcados pelas décadas de trabalho brutal puxando carroças coletando material reciclável, não num ativismo ambiente, mas, na luta pela sobrevivência real. Os sexalescentes que não sonham com a aposentadorias são exatamente o grupo social que não vão sofrer nada, caso essa famigerada reforma da previdência seja aprovada na formatação perversa que tramita na Casa Legislativa Brasileira. Não podemos ser seduzidos pelo canto de seria do artigo, que produz uma visão romantizada do envelhecimento no Brasil. Os sexagenários de hoje não são muito diferentes do passado, são homens e mulheres esgotados, sugados de suas forças e vitalidades depois de décadas de muito trabalho. Não existe uma geração do sessenta/setenta anos de idade que conseguiu chegar hoje “com boas saúde física e mental”, como escreve a autora, mas apenas uma elite que teve a sorte de ter uma vida razoavelmente satisfatória e continua com força e vitalidade para seguir a vida, e por isso se recusa o rótulo de velho, e quer uma distinção social. O mérito do texto é sinalizar que existe mais uma distinção social em construção no Brasil, e com isso temos também a produz de um novo fetiche social, o sexagenário deseja ser sexalescente.

Agradeço ao amigo e colaborador Nertan Silva-Maia pela ilustração intitulada SEXALESCENTE?

NOME UM HÁBITO

Como Nietzsche podemos dizer: “Eu sou vários. Há multidões em mim. Na mesa de minha alma sentam-se muitos, e eu sou todos eles. Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo. Você nunca saberá com quem está sentado ou quanto tempo permanecerá com cada um de mim. Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa, nesse ritual sagrado eu lhe entregarei ao menos um dos tantos que sou, e correrei os riscos de estarmos juntos no mesmo plano. Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento manter preso e que quando se solta me envergonha. Não sou santo, nem exemplo, infelizmente. Entre tantos, um dia me descubro, um dia serei eu mesmo, definitivamente. Como já foi dito: ouse conquistar a ti mesmo“. Mas será que temos que conquistar essa unidade, conquistar este eu definitivo? Existe em cada um de nós uma única identidade? Ou somos na verdade uma multiplicidade indivisível? Será que conquistar a si mesmo não é exatamente perceber que somos múltiplos? Além disso, será  que nossa aventura não seria melhor sem o nome próprio? “Diante das árvores Alice perde seu nome”(Deleuze, LS, 11), e perder o nome é o que garantiu a sua grande aventura nômade. Mas, por outro lado, quem sabe não somos como Kevin, personagem do filme Fragmentado, e apenas conseguimos manter cativas nossas outras facetas? No filme Fragmentado, Kevin é diagnosticado com múltiplas personalidades, ele consegue com a força do pensamento alternar entre as 23 personalidades que ele é, mas não é disso que estou falando, estou querendo pensar um pouco essa multiplicidade que somos e que, ao longo da vida ou ao longo do dia, nos movimentamos de uma para outra.  Penso que o movimentar de um ao outro no fluir tempo-espacial seria mais fácil se não fossemos obrigados a manter o mesmo nome, a mesma identidade, nessa multidão que somos. Somos nômades, por que mantemos um único nome? Mesmos sabendo que somos múltiplos? Aceitamos essa condição por mera convenção social? Deleuze e Guattari afirmam que preservamos nossos nomes “por hábito, exclusivamente por hábito. Para passarmos despercebidos. Para tornar imperceptível, não a nós mesmos“, mas, para os outros. Para não produzirmos uma estranheza, um desconforto. No funda, parece que é apenas “porque é agradável falar como todo mundo e dizer o sol nasce, quando todo mundo sabe que essa é apenas uma maneira de falar”. [ou falar como todo crente num Deus único, eterno e absoluto: vai com Deus! sabendo que ele não vai a lugar nenhum, pois tem consciência que Ele está em todo lugar, em sua onipresença é impossível não ir e ficar ao mesmo tempo, então aquela despedida é apenas uma maneira de falar]. Podíamos  “chegar ao ponto em que não se diz mais EU, mas ao ponto em que já não tem qualquer importância dizer ou não dizer EU. Não somos mais nós mesmos. Cada um reconhecerá os seus. Fomos ajudados, aspirados, multiplicados“. Somos uma multidão em movimento nas experiências da vida. Seres nômades, errantes pelo mundo. Como naquela canção da Banda Kid Abelha, Nada sei:

“Sou errada, sou errante
Sempre na estrada
Sempre distante
Vou errando
Enquanto tempo me deixar”

Algumas pessoas são errantes e assumem essa posição, sua condição nômade. Alguns amigos fizeram uma metamorfose na errância da vida, os conheci com um nome e depois resolveram se redesenhar, se reinventar, mudaram radicalmente de nome. Seja por assumir uma vida como escritor, poeta, ator, ou simplesmente, por não gostar do nome que recebeu. Essa reconstrução deveria ser permanente. Somos diferença e diferentes no fluir da existência. As relações e encontros vão nos afetando e transformando, além dessa multidão que somos, que habita dentro de nosso universos interior. A cada momento um deste personagens assumem o protagonismo da vida. Somos sérios, brincalhões, melancólicos, rigorosos, dependendo da situação que somos lançados no mar da história, como poeticamente Maiakóvski escreveu:

“Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.”

Como ser único num mundo plural e diverso? Para atravessar o mar agitado da vida é preciso assumir a multiplicidade que somos, apesar do hábito exigir que nos apresentemos sempre do mesmo modo, com o mesmo nome, como se fossemos uma unidade permanente e imutável. O que subjaz num texto como este é a diferenciação entre subjetividade e subjetivação: a primeira matriz de pensamento vinculada a tradição filosófica que compreende o sujeito como portador de uma substância , uma identidade, uma consciência, uma essência,  toda filosofia cartesiana, kantiana, hegeliana entre outra se alimentam e são alimentadas por uma metafísica essencialista; a segunda matriz de pensamento, a subjetivação, não atribui ao sujeito uma moldura pré-fabricada, o sujeito é compreendido a partir das interações entre corpos, os múltiplos encontros vividos e sofridos vão construindo o indivíduo. Os corpos são fendidos pela diferença, não possuem nenhuma identidade que não seja provisória. Não somos nessa filosofia nietzschi-deleuziana definidos por nenhuma transcendência. É no plano da pura imanência que nos forjamos como múltiplos, nas múltiplas experiências da vida. E paradoxalmente, somos desertos, como escreveu Deleuze: “Nous sommes des déserts, mais peuplés de tribus, de faunes et de flores”. Somos desertos povoados e órfãos de pais e mães vivos.

Fica aqui o agradecimento ao amigo e colaborador, Nertan Silva-Maia, pela ilustração intitulada NÔMADE.

EPICURO, PRAZER E FELICIDADE

Para Epicuro o prazer é o princípio e o fim da vida feliz, porém isso é diferente do hedonismo, pois não existe para o pensador uma relação mecânica e simplista entre isso e aquilo… Os prazeres que produz felicidade não são necessariamente os da sensualidade e dos desmedidos. Prazer pelo prazer. Epicuro produz uma hierarquia que passa dos desejos naturais e necessários ao não naturais e desnecessários. Para ele existe uma equação entre prazer e dor, na realização dos desejos temos o máximo prazer e a ausência da dor, mas se não pararmos teremos ausência do prazer e a intensificação da dor. É neste sentido que o glutão não é feliz, a glutonaria gera prazeres transitórios, uma vez que também geram efeitos colaterais. O beberão não é feliz, pois a ressaca após uma noite de prazer tomando muito vinho o lança numa situação infernal, de dor e sofrimento, que sufoca o efêmero prazer vivido. A moderação e equilíbrio são as marcas do pensamento feliz para Epicuro, pois o prazer é fruto da ausência de perturbação do corpo e da alma. Num movimento oposto ao sonho de muitos, Epicuro afirma que não é a riqueza, a possibilidade de consumir tudo que se deseja, ou a obtenção de cargos de prestígio ou de poder que garantem a felicidade, já que tudo isso é passageiro e fulgaz, são apenas gozo e a alegria. Para ele, gozar de uma vida feliz não está ligado à abundância material, ou ao poder político e econômico, nem mesmo a fama, eles são prazeres movestes e flutuantes; ao contrário dos prazeres estáveis frutos da ausência de perturbação e de dor. Neste sentido ele escreveu:

“Quando dizemos, então, que o prazer é fim, não queremos referir-nos aos prazeres dos intemperantes ou aos produzidos pela sensualidade, como crêem certos ignorantes, que se encontram em desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimentos do corpo e de perturbações da alma”.

Viver apreciando a vida com moderação e equilíbrio, mas isso não significa viver sem intensidade. Temos que conquistar este equilíbrio e essa moderação, num processo filosófico.  É importante que se diga, não existe um momento específico para realizar isso, de acordo com Epicuro, é bom não procrastinar, pois “nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz”.

O prazer da vida feliz está naquilo que, muito tempo depois, Spinoza denominou beatitude. Neste conceito podemos ouvir ressonância epicurista na produção spinozano, no Preâmbulo do Tratado Político e no seu livro maior a Ética.

CRÍTICAS E ELOGIOS – AS PÉROLAS VERDADEIRAS E AS FALSAS

A sensação é que na vida estamos sempre entre este dois extremos, ora recebendo uma coisa, ora outra. Parece que navegamos entre críticos mordazes e elogios de bajuladores,  entre polianas e rabugentos, são dois pesos insuportáveis. Nenhum destes extremos são bons, pois nos negam o que a boa critica e o verdadeiro elogia podem e devem produzir a alegria de viver. Ambos quando são honestos e verdadeiros edificam, não custam nada, são  frutos da gratuidade generosa dos amigos sinceros; e, ao contrário, temos os falsos elogios e as críticas demolidoras que podem ser muito caros, no extremo valem até mesmo toda nossa vida.  Já dediquei duas postagens neste blog sobre o tema elogios, intituladas: A força do elogia e O perigo dos elogios. Mas, ainda acredito que preciso escrever em outra perspectiva, o papel do crítico na avaliação de nossa existência. Quem são os críticos? Quais críticos merecem nossa atenção? Os perversos, quando respondem a primeira questão, chegam a dizer que eles são os engenheiros de obras prontas, ou sentenciam aquela frase atribuída a George Bernand Shaw: “aquele que é capaz, faz; aquele que não é, ensina“. O crítico seria nessa perspectiva alguém que não sabe fazer, mas quer e deseja ensinar como se deveria fazer. Porém, depois do trabalho realizado, criticar e tarefa fácil, mostrar os limites e erros da elaboração será sempre mais simples do que produzir. É fácil acusar que o projeto teórico foi bem pensado e elaborado, mas a execução ficou aquém do projeto. Quando não, eles conseguem demolir até mesmo projeto inicial. Todavia, a crítica quando é construtiva consegue indicar os dois lados da moeda, uma vez que não existe nada que seja 100% perfeito, na mesma medida, que não existe nada que seja 100% imperfeito. Poderíamos até questionar essas duas noções: o que é perfeição? O que é imperfeição? Além do mais, a dinâmica da vida é sempre movimento entre uma coisa e outra. E, sem dúvida, as limitações apontadas são pontos de partida para buscarmos melhorar o que foi realizado. Sem a realização não seria possível avançar. Mas para acontecer essa dinâmica é fundamental que o crítico aplique sempre a honestidade.

Há muito tempo, um grande amigo e irmão do caminho, Manoel Messias de Oliveira, me apresentou uma conto do escritor Malba Tahan, que é revelador da postura que podemos considerar paradigma do crítico sensato e honesto, aquele que merece nossa atenção. A narrativa se intitula A lenda das cinco pérolas, buscarei apresentar uma versão adaptada e sintética:

Num reino tão tão distante, o monarca queria dar um lindo presente de aniversário para sua esposa, assim mandou o seu servo buscar um vendedor de joias, pois pensou fazer algo magnifico para sua amada rainha. Muito rápido ele foi ao mercado, localizou um vendedor de pérolas e o levou ao palácio. O vendedor era muito falante e tinha uma postura muito excêntrica, era até apelidado de “xeique dos imprevistos“, pois afirmava que sua postura nos negócios seguiam a dinâmica da vida, e se apresentava sempre dizendo: “eu sei resolver de maneira diferente e com imprevisível recurso os pequenos e grandes problemas da vida“… Assim, que terminou de se apresentar ao Rei, o mercador retirou de sua bolsa duas pequenas caixas, uma amarela e outra vermelha, e revelou os seus conteúdos dez pérolas de rara e impecável beleza. E, após abri-las, com voz solene, afirmou: Ó majestade, apontando para caixa amarela, essas cinco pérolas são verdadeiras. “Valem um tesouro e são dignas da virtuosa esposa de nosso generoso e querido califa”. Depois, apontou para outra caixa, a caixa vermelha, essas outras cinco pérolas também lindas e majestosas são absolutamente falsas. São inteiramente falsas. Difícil é distinguir, mesmo para um perito experiente, quais são as falsas e quais são as verdadeiras, pois “as ilegítimas apresentam requintes de perfeição, ao passo que nas autênticas percebemos, depois de acurado exame, pequeninas manchas e ligeiros falhas“. Isso acontece, ó meu Rei, “porque a verdade, em sua singeleza, tem muitas vezes a aparência da impostura e da fraude, ao passo que a mentira, para confundir a boa fé, reveste-se com toda as cores da autenticidade e de exatidão“. A mentira muitas vezes é mais sedutora do que  a verdade. Como na vida estamos sempre entre uma coisa e outra, ninguém ficará imune de comprar uma mentira como verdade, ou desconfiar desta como sendo aquela. Desta forma, como na vida, só poderei vender essas pérolas juntas, as cinco verdadeira e as cinco falsas. Assim, ao ouvir atentamente a apresentação do mercador, o rei perguntou: — “E quanto queres, ó Xeique dos Imprevistos, pelas tuas pérolas falsas e verdadeiras?”

O mercador, sem pestanejar respondeu: — “Cada pérola verdadeira custa apenas dez dinares; cada pérola falsa custará quinhentos dinares. [E reforçou sua sentença] Mas só venderei as cinco legítimas àquele que adquirir, também, as cinco imitações”.

O Rei não se conteve e deu uma gargalhada, diante daquele absurdo.  E, o Rei sentenciou: O mercador de Damasco! “É bem estranho que procures vender o falso cinqüenta vezes mais caro que o verdadeiro. O certo, o justo, o conveniente, seria que as pérolas autênticas custassem quinhentos ou mil dinares cada uma e que as ilegítimas fossem vendidas, em conjunto, por meia dúzia de moedas!”.

Neste momento, o mercador resolveu dar a primeira lição do conto. Ele de forma elegante argumentou: “A longa experiência da vida ensinou-me que, na realidade, o homem paga sempre pelo que é enganoso, e falso, muito mais do que despende por aquilo que é verdadeiro e sincero. Um amigo falso, por exemplo, custa-nos caro, ao passo que um amigo leal e dedicado não nos custa dissabores nem prejuízos. O jovem que faz um casamento falso arrepende-se; paga com intermináveis amarguras da existência o passo errado que a ilusão de um momento o levou a praticar; aquele que escolhe uma boa esposa e realiza um matrimônio acertado e feliz prospera e enriquece. Ainda desta vez o falso custou caro; o verdadeiro deixou a impressão de não ter custado meio sequim em relação ao lucro que proporcionou. Baseado em tais argumentos, deliberei fixar para as minhas pérolas preços bem diversos, e esses preços, ao espírito menos avisado, podem parecer desconexos; as falsas custam cinqüenta vezes mais caro do que as verdadeiras! Faço, nas minhas transações, a imitação exata da vida!”.

O falso é mais caro do que o verdadeiro na vida e nos negócios. Para o mercador, sempre pagamos mais pelo falso, o verdadeiro não nos custa nada. Os elogios falsos podem nos valer muito caro, pois produzirá delírios e fantasias nos fazendo flutuar numa bola de sabão, que rapidamente explodirá. A queda será dolorosa. Apesar da argumentação do mercador, o rei não se deixou vencer facilmente pela extravagância do mercador. E, além disso, um tesoureiro real desconfiado sugeriu que o mercador estava querendo enganar o rei vendendo pérolas que poderiam ser todas falsas. Diante da dúvida lançada pelo tesoureiro, o rei deliberou que antes os seus técnicos deveriam avaliar todas as perolas. “E, num gesto rápido, e quase impulsivo, o califa tomou as duas caixas e, juntou, num só grupo, as dez pérolas que acabara de adquirir”. Depois de misturar as pérolas, determinou que os dois joalheiros do palácio deveriam ser ouvidos separadamente, e não poderiam revelar ao outro sua avaliação das pérolas. Desta forma aconteceu a avaliação, para satisfazer o desejo do rei em saber até que ponto o mercador era leal e honesto. O primeiro avaliador, um jovem joalheiro, chegou e examinou detalhadamente cada uma das pérolas e falou ao rei: — “Do exame que acabo de proceder nestas pérolas, ó Rei magnânimo, pude concluir que não existe, nesta coleção, uma só que seja verdadeira. São todas falsas! Esta coleção pouco vale, ou melhor, nada vale. […] Este vendedor, a meu ver, não passa de um intrujão que pretende ilaquear a vossa boa fé e explorar a vossa generosidade“. O rei ordenou sua saída e mandou entrar o segundo avaliador, era o mais experiente joalheiro palaciano, ele cuidadosamente observou pérolas por pérolas,  “revirando-as entre os dedos trêmulos, riscando-as de leve com a ponta de uma espátula dourada, o judicioso joalheiro assim falou: — Estas pérolas, ó Emir dos Crentes, são as mais lindas e as mais verdadeiras que pude, até hoje, observar. Não encontro nesta dezena de preciosas gemas uma só que não seja perfeita na cor, na forma e no brilho. Felicito-vos, portanto, pela compra que acabais de fazer”. O rei ficou surpreso com a total divergência dos avaliadores. Entrou num impasse, mas como pessoa prudente, sensata e conciliadora resolveu interpelar o mercador: — “Infelizmente, meu amigo, depois de ouvidos os dois peritos em pérolas, a tua situação é delicada. Se eu aceitar, como certo, o parecer do jovem joalheiro cairá sobre ti grave acusação. Ingrata será a tua sorte. Jamais deixei impune os impostores e intrujões. Admitido o voto do meu mais antigo joalheiro, homem sensato e judicioso, ficará ainda assim pairando sobre o teu nome a triste sombra da mentira e da leviandade. Ofereces ao califa dos Crentes dez pérolas verdadeiras e procuras, na verdade, deslustrar esta corte, zombar da nossa magnanimidade, fazendo crer que cinco eram falsas! Exijo, pois, que sejas leal e sincero. Que há de certo e positivo em toda esta confusão?”.

Diante da situação espinhosa, o mercador pensou e falou para o Rei: —- “Acabais, o Príncipe do lslã, de apelar para a minha sinceridade. Faço da sinceridade ponto de honra da minha vida. A sinceridade é sempre louvável, mas cumpre que seja delicada e prudente. Falar com sinceridade sobre coisas que devemos calar é ser brutal e descaridoso. Logo que a sinceridade ofende e magoa muda de nome e vira grosseria e estupidez. A sinceridade é a maneira suave de dizer as verdades que devem ser ditas sem ofender, sem melindrar. Tem a perfeita sinceridade limites que a boa educação torna intransponível. Para atender, pois, ao vosso justo desejo vou expor, com a maior sinceridade, o que penso sobre este caso sem afastar uma linha da lealdade e da lisura”. Após este preambulo, o mercador fez uma avalização e tipificou os seus avaliadores. Estamos diante de três homens, três tipos de posturas frente a vida: O primeiro tipo, é o homem desconfiado de tudo, foi ele que alertou ao rei para duvidar da veracidade do mercador. Este homem, o tesoureiro real, é incapaz de acreditar em qualquer um. É um homem desconfiado. “Suspeita de tudo e de todos. Tem o coração cortado e recortado pelos espinhos do receio e da desconfiança. Lamento-o. Será sempre infeliz. A vida para ele será a eterna ternura entre o medo dos homens e a descrença de Deus. Por não confiar jamais nos outros é incapaz de confiar em si próprio. A meu ver, tomou um roteiro errado pelos caminhos da vida. Só aqueles que confiam podem ser felizes. Precisamos confiar nos amigos, nos homens de bem, em nossos chefes e superiores, naqueles, enfim, que agem com lisura e retidão. Cumpre-nos confiar nas pessoas dignas que não deram jamais motivos para suspeitas e desconfianças. E ainda mais: confiar no Amor; confiar na Bondade; confiar em Deus”. O segundo, o jovem joalheiro, “é um pessimista. Em tudo, em todos só vê defeitos, imperfeições, vícios e deformidades. Para esse jovem, a perfeição, a pureza e o requinte não existem. E cego para as qualidades que adornam as criaturas, mas tem olhos de lince para descobrir manchas e falhas. Se lê um trecho de prosa, ou um verso, não é para admirar a ideia, mas para sublinhar negligências. Não louvo a maneira de agir daqueles que procedem como este jovem joalheiro. A vida é curta; apreciemos com alegria o que há de belo e esqueçamos as máculas e deformidades”. O terceiro tipo, o mais velho dos joalheiro real, é um otimista.  “Tem um bom coração; é um simples. Encara a vida com benignidade e otimismo. Para ele tudo é lindo, gracioso e puro. O bondoso joalheiro só vê qualidades. A indulgência de seu espírito não permite que ele perceba os tristes defeitos e as deploráveis mazelas. Para ele tudo é excelente e nobre”. Após a sua avaliação dos avaliadores, o mercador conclui que: “O homem equilibrado será incapaz de agir como o jovem joalheiro, que só vê falhas e labéus, mas deve evita também proceder como o velho joalheiro, que só reconhece os bons e nobres predicados. Sejamos justos, procedendo com nobreza, exaltando também as qualidades e os legítimos valores”. Assim, satisfeito com as explicação, o Rei comprou as pérolas e agradeceu ao Mercador pela lição de vida.

Podemos dizer, que essa avaliação do Mercador é magnifica para pensarmos nos críticos da vida alheia. O bom crítico só será um avaliador honesto se não for nem como o jovem joalheiro e nem semelhante ao velho joalheiro. A postura adequado e produtiva é a do crítico que de forma justa consegue reconhecer os bons e nobres predicados e, da mesma forma, percebe e revela as limitações e falhas. As pérolas verdadeiras e as pérolas falsas devem ser destacadas numa avaliação de qualquer coisas. Destes avaliadores sensatos não precisamos temer. Assim, não tenha medo, nem se aborreça e muito menos se irrite com as críticas sofridas, ao contrário, se alegre, pois, elas são reconhecimentos pelas suas obras, os bons críticos as tornam sempre melhores, mostrando as qualidades; e os adversários as esclarecem, revelando os seus limites. E, sem dúvida, os críticos ao produzi-las também se regozijaram naquele deleite de analisar e avaliar uma obra de arte. Além disso, não esqueça, “criticamos uma pessoa ou sua obra quando subscrevemos seu ideal“. Como escreveu Nietzsche: “A crítica, a exclusiva e injusta bem como inteligente, causa para aquele que a exerce um prazer tal como o mundo deve reconhecimento a toda obra, toda ação que provoquem numerosas críticas da parte de numerosas pessoas: pois, a crítica deixa um rastro brilhante de alegria, de espírito, de admiração de si, de altivez, de ensinamentos, de boas resoluções. – O deus da alegria criou o mau e o medíocre pela mesma razão que o levou a criar o bem“. A ação de análise crítica é um exercício sério e importante, entretanto a crítica sempre será mais fácil do que o ato criativo. Após o trabalho criativo reparar as rebarbas é simples para quem tem olhos analíticos. Mas, essa ação da critica precisa reconhecer primeiro qual era a intenção do produtor, caso contrário não chegaria próximo da obra. O bom critico precisa mostrar quais são as pérolas verdadeiras e as falsas da obra analisada, e, nesse sentido, o conto de Malba Tahan é profundamente pertinente, pois, o que ele nos ensina é que não devemos confiar em elogios mecânicos e superficiais, os tipos mais comuns presentes atualmente nas redes sociais, que navegam entre dois extremos: os bajuladores de plantão e os pessimistas que só conseguem enxergar defeitos e falhas, essas pessoas sugam nosso entusiasmo, roubam nossa paciência… muitas vezes nos fazem acreditar que estamos no caminho errado, pois não conseguem enxergar nenhuma pérola verdadeira, nada de bom ou positivo. A autoavaliação deve ser um momento importante no ato criativo, pois quem produziu precisa faz com honestidade uma avaliação do próprio trabalho. Mas é bom ouvir o que os outros têm a dizer, entretanto, isso não pode ser determinante. Não podemos perder o equilíbrio frente as críticas recebida. Elas nos desterritorializam, mas, no movimento seguinte, conseguimos nos reterritorializar, pois os críticos não podem ter a força para nos manter apátrida e nem sugar todo nosso sangue. Finalizo com umas palavras bem humoradas do professor Nietzsche: “Os insetos picam, não por maldade, mas porque desse modo querem viver: ocorre o mesmo com os críticos; querem nosso sangue, não nossa dor“.

Agradeço ao meu amigo e colaborador Nertan Silva-Maia pela ilustração intitulada O PESO DA CRÍTICA E DO ELOGIO.

A INDIGESTÃO PRODUZ RESSENTIMENTO

O filósofo Epicuro nos ensinou que temos três tipos de desejos: a) os naturais e necessários, b) os naturais, mas não necessários, e, por fim, c) os não naturais e não necessários… Assim,  comer liga-se ao primeiro tipo, aos desejos relacionados com a própria conservação da vida, a alimentação não é apenas prazer, comer é algo natural e necessário para a vida, entretanto, satisfazer esse desejo, ou qualquer outro, de forma desregrada produzirá consequências, tudo tem efeitos colaterais. Temos consciência que comer demais, ou comer algo contaminado e estragado, ou comer algo de origem duvidosa e desconhecida, pode nos fazer muito mal, podemos ser afetados por uma forte indigestão, dificuldade de digerir os alimentos ingeridos e isso pode nos provocar gastura, mal estar, dores e irritação. A indigestão pode ser seguida de indisposição associada a dores abdominais, náuseas e vômitos. Ela acontece quando o corpo rejeita algo que não compõe, aquilo que o organismo não consegue absorver, e parece que o alimento indigesto está agindo num processo de decomposição corporal. Na vida, como na alimentação, temos que ter cuidado com o que estamos ingerindo, pois as experiências vividas ou sofridas são alimentos agradáveis e saborosos; bem como, desagradáveis e amargos, podem nos fortalecer, enfraquecer ou até nos matar. Assim como os alimentos podem não cair bem, as relações, os encontros na e da vida também podem não cair muito bem.  As experiências da vida mal digeridas produz também indigestão, e com elas o ressentimento. Exatamente, é a indigestão que gera o ressentimento e, assim  ressentidos, podemos nos fechar as novas experiências. O ressentido é quase sempre uma pessoa passiva, reativa e pessimista, uma vez que vive em indigestão permanente, por isso, não tem disposição para realizar novas experiências seja pelo receio do sofrimento, seja pelo pessimismo que lhe garante  que as experiências serão dolorosas. Entretanto, na vida, a indigestão não é apenas uma dificuldade de digerir, como no caso da indigestão corporal, mas a indigestão das experiências da vida acontece também na louca tentativa de reter, segurar, manter, ficar preso na mesma estação de desconforto e sofrimento das relações indigestas. Não aceitar o fim da relação, da experiência, é também um tipo de indigestão. Desta forma, quem tenta impedir o fluir da vida, não faz a boa digestão das suas experiências… Parece que não quer aceitar a dinâmica a vida, ela é feita de encontros e desencontros, de alegrias e tristezas, de vitórias e derrotas, ou, podemos dizer,  como canta o poeta Milton Nascimento, de encontros e despedidas. Nossa vida é uma estação, gente chegando e saindo, o vai e vem é permanente…

Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega prá ficar
Tem gente que vai
Prá nunca mais…

Não é possível impedir esse acontecimento, quem tenta constrói em si e para si uma dor sem fim, uma indigestão permanente, e, ao mesmo tempo, terá com essa atitude uma velhice ressentida. Se tornará um  exemplo da  caricatura do velho rabugento da literatura, do cinema, do desenho animado, uma vez que, ninguém nasce rabugento, nos tornamos nas indigestões sofridas na vida. Mas, como a vida não é um fato consumado, existe solução para esse problema de indigestão existencial. O remédio para essa indigestão, o grande remédio para a indigestão da vida, é o saudável esquecimento, ele é “uma força plástica, regeneradora e curativa“, no diz Nietzsche. Esquecer, deixar passar, superar as experiências da vida para não sofrer de indigestão. Todavia, não existe apenas este tipo de indigestão individual fruto dos desencontros da vida, podemos viver indigestões coletivas, que são situações de experiências sociais de dor e sofrimento. O povo brasileiro está passando por uma situação dessa natureza, estamos vivendo num tempo difícil, um tempo de grande indigestão coletiva, as últimas eleições foram indigestas, e podemos sentir isso em múltiplos espaços sociais, atuais e virtuais, um mal estar civilizatório. Isso é visível nas relações sociais em muitos ambientes, tais como os familiares e os do mundo trabalho; depois das eleições eles não são mais os mesmos. Penso que as redes sociais são importantes termômetros dessa insatisfação, náusea, gastura e irritação típicas das indigestões, são sentidas nas postagens de muita gente. Existe um dor estomacal coletiva, sinal que não conseguimos digerir essas últimas eleições. Assim, tudo indica, serão alguns anos indigestos, mantendo essa situação teremos um país ressentido, reativo, em crise. O remédio nessa situação, não é o mesmo da indigestão frutos das indigestas relações interpessoais, não é só esquecer e seguir a vida, neste caso apenas ações de resistência e de insurreição poderão diminuir esta indigestão coletiva. A forma mais simples de insurreição e de resistência está no ato de pensar. Os estados autoritários de linhagem fascista odeiam o pensamento plural, assim o ato de pensar torna-se um ato de desobediência, de transgressão, de insubordinação, é uma forma de dizer não ao indigesto pensamento estatal, que deseja amordaçar o pensarÉ fundamental insurgir para não sucumbirmos num tipo de Estado religioso, estado da desrazão. O remédio para a indigestão do estado fascista é o pensamento nômade. Viver num Estado dessa natureza é indigesto demais…

Quero agradecer ao amigo e colaborador deste blog, Nertan  Silva-Maia, pela provocante e instigante ilustração intitulada INDIGESTÃO.