A VIDA COMO LUTA E COMPETIÇÃO

Existe uma visão comum de que a vida é uma competição, ou pior uma prática comum transformando a vida em uma disputa estupida. Movidos e alimentados por essa ideia e por essa prática, as pessoas como loucas se batem, se debatem e gastam a vida toda e toda a vida para efetivar uma batalha contra os outros na tentativa de se dar bem na vida. Mas o que significa se dar bem na vida? Acredito que muitas das dores e sofrimentos da vida estão ligada à essa falsa ideia que nascemos para competir com os outros, ou contra os outros. A vida como luta, como batalha, como guerra de todos contra todos. Quando nascemos e durante toda nossa formação infantil, no seio familiar e na escola, ouvimos frases, que nos condiciona a essa visão competitiva na e da vida, tais como: nasceu pra vencer, vai ser um vencedor na vida, este tem pinta de campeão, tem que lutar para ter sucesso na vida, se você não batalhar vai ficar pra trás, você tem que estudar para ser alguém na vida, entre outras pérolas belicosas que transformam a existência numa luta frenética. E o pior é que essa neuro-programação tem muita força e as pessoas vivem a vida como se estivessem mesmo num campo de batalha, muitos usam de todas as armas para ganhar. No mundo competitivo, para vencer vale tudo. O que provoca dores e sofrimentos de várias ordens. As dores estão ligadas a pelo menos duas coisas, por um lado, a dor de sentir-se derrotado e, por outro, a dor da solidão, pois num mundo bélico, não existe espaço para solidariedade, amizade e fraternidade. O capitalismo é o sistema de força, vence quem tem mais munição e, com isso, em parte ressuscita o estado de natureza hobbesiano, no capitalismo selvagem o homem é lobo do homem.

Essa vida competitiva é uma máquina de produção de dores, sofrimentos e angústias. As pessoas são iludidas que o sucesso é para todos, porém esquecem que na dinâmica da luta pelo sucesso existe sempre uma legião de derrotados. O sucesso não é para todos, pois se todos conquistassem o sucesso ele deixaria de ser sucesso, além disso, a conquista dura dele não é a certeza da felicidade. A angústia produzida durante o processo da conquista do lugar ao sol, seja na corporações privadas ou nos órgãos públicos via insanos, e algumas vezes fraudulentos, concursos públicos, não abandonará a pessoa. A angústia nos acompanhará sempre. O preço a pagar por este lugar ao sol é muito alto.  Sacrifícios de toda sorte são realizados com o objetivo de vencer na vida. O que alimenta essa disputa e da força nos momentos de desânimo e medo do fracasso, é a esperança, essa alegria flutuante originada pela imagem do sucesso futuro, mas que é evanescente, desaparece muito rápido com a presença do espectro do medo da derrota. Os amigos e parentes próximos dizem frases de apoio para motivar e energizar o guerreiro para seguir na batalha. Esses lutadores do sucesso na vida, renunciam ao convívio com os familiares e amigos, para se dedicarem a horas sem fim de estudo. Esse sacrifício e dedicação só acontece porque sonham com  uma vaga num concurso publico ou com a promoção numa empresa privada. A motivação é a competição e a comparação, pois se outros conseguiram -pensam os guerreiros – também conquistarei, fecham os olhos para os derrotados, que também são produzidos nessa luta insana. A vida torna-se um fardo doloroso, o pensador Slavoj Zizek disse que “estamos presos em uma competição doentia, uma rede absurda de comparações com os demais. Não prestamos atenção suficiente no que nos faz sentir bem porque estamos obcecados medindo se temos mais ou menos prazer do que o restante“. Nossa vida singular é desgastada sendo comparada com as dos outros. O sonho do crescimento e desenvolvimento para ter uma vida melhor forjada na educação familiar e escolar produz neuróticos obcecados pela vida alheia. Somos escravos dessa mentalidade.

Essa ideia de que temos que conquistar, desenvolver, progredir e crescer na vida neste sistema está ligado apenas a questão financeira… O vale quanto pesa é a tônica. Desenvolver financeiramente, conquistar maior poder de consumo, essa é a visão de que alguém progrediu nessa tribo. A pessoa de sucesso nessa tribo preciso assumir uma conduta e ter os signos dessa vida social. Este signos de sucesso e pertencimento foi cantada pelo Renato Russo, em seu punk rock Química:

“se você quiser entrar na tribo
Aqui no nosso Belsen tropical
Ter carro do ano, TV a cores, pagar impostos, ter pistolão
Ter filho na escola, férias na Europa, conta bancária, comprar feijão
Ser responsável, cristão convicto, cidadão modelo, burguês padrão.

Você tem que passar no vestibular”.

Sem este signos você estará fora, não conquistou o progresso social e por isso seguirá com um gosto amargo na boca. O gosto da derrota, o sabor de fel. Triste vida, essa encarada como uma disputa, uma luta, uma guerra… essa visão reducionista que acredita que o valor humano se traduz na sua conta bancária… vale quanto pesas. Como escapar dessa ditadura financeira? Como deixar de aceitar que as pessoas não são especiais pelo que podem consumir? Não somos melhores porque podemos comprar tudo que desejamos. O sistema capitalista produziu essa mentalidade que somos mais e melhores quando somos agentes produtores e consumidores de bens e produtos, mas o ser humano não é apenas bidimensional, além dessas dimensões temos múltiplas dimensões. E essas outras dimensões não tem valor monetário. Na verdade, as melhores coisas da vida não se compram com dinheiro. No mundo da conquista da independência financeira, na luta do vale tudo, perdemos a oportunidade de solidificamos as relações afetivas. Afeto é ação, as relações afetivas são ações cotidianas que produzem vínculos entre pessoas, vínculos frutos da liberdade. Amor é liberdade. Nessa dinâmica afetiva somos ativos na edificação das relações, ao contrário das relações passionais. A paixão não é ação, um ser apaixonado é um ser passivo. A paixão pelo sucesso, pelo dinheiro, por qualquer coisa é escravidão. Se o amor é liberdade, a paixão é escravidão. As pessoas são programas no sistema capitalista para se tornar escravos da luta pelo dinheiro, escravos da competição sem fim. Escravos da ambição. A vida não pode ser reduzida a luta, a guerra, a competição por riquezas. Existe algo a mais na vida do que a conquista de riquezas. Existe uma felicidade no viver longe dessa lógica capitalista.

[Desenho do meu amigo Nertan Silva-Maia, intitulado A MÁQUINA DE DORES]

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O RISCO DA IMPACIÊNCIA

Ter paciência é sinal de sabedoria, pois, quando a temos evitamos muitos contratempos, conflitos e confusões, ela nos controla do desejo de dominar e desrespeitar o outro. A paciência é anti-fascista, por isso o grito por uma vida não fascista é o apelo a paciência. A impaciência é o opostos disso, pois o impaciente, como todo fascista, deseja impor ao outro a sua ritmicidade existencial, o que é uma violência. Para evitar isso, é fundamental reconhecer que cada coisa tem o seu ritmo, cada pessoa sabe a força que tem para carregar os fardos da vida. Como escreveu o poeta Caetano Veloso: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” . Quando não respeitamos o tempo do outro, ou tentamos impor ao outro uma carga que ele não vai suportar, podemos produzir uma deformação e/ou podemos esmaga-lo com o peso excessivo. O escrito grego Nikos Kazantzákis, em sua obra Zorba: o Grego, descreveu essa situação de forma brilhante, veja o que ele escreveu sobre o risco da impaciência:

Lembrei-me de uma manhã em que encontrei um casulo preso à casca de uma árvore, no momento em que a borboleta rompia o invólucro e se preparava para sair. Esperei algum tempo, mas estava com pressa e ele demorava muito. Envervado, debrucei-me e comecei a esquentá-lo com meu sopro. Eu o esquentava, impaciente, e o milagre começou a desfiar diante de mim em ritmo mais rápido que o natural. Abriu-se o invólucro e a borboleta saiu, arrastando-se. Não esquecerei jamais o horror que tive então: suas asas ainda não se haviam formado, e com todo o seu pequeno corpo trêmulo ela se esforçava para desdobrá-las. Debruçado sobre ela, eu ajudava com meu sopro. Em vão. Um paciente amadurecimento era necessário, e o crescimento das asas se devia fazer lentamente ao sol; agora era muito tarde. Meu sopro havia obrigado a borboleta a se mostrar, toda enrugada, antes do tempo. Ela se agitou, desesperada, e alguns segundos depois morreu na palma de minha mão. Creio que esse pequeno cadáver é o maior peso que tenho na consciência. Pois, compreendo atualmente, é um pecado mortal violar as leis da natureza. Não devemos apressar-nos, nem impacientar-nos, mas seguir com confiança o ritmo eterno” (KAZANTZÁKIS, 1974, p.151-2).

Após essa delicada narrativa, Kazantzákis reconhece nela uma metáfora sobre a vida, e diz que aquele acontecimento mostrou que não podemos acelerar o ritmo das coisas, devemos respeitar a ritmicidade existencial de todos os seres. Temos que aceitar que não estamos no controle do tempo, pois o impaciente luta contra o fluir natural do tempo, num “desejo indiscreto de capturar o futuro”, e isso é tolice. Numa visão holística, temos que respeitar com confiança o ritmo do cosmos. Paciência cósmica para evitar dessabores. Assim, podemos afirmar que a impaciência, a pressa, e o imediatismo podem provocar dores e sofrimentos atrozes. Existe uma leveza na paciência, pois a impaciência, a preocupação e a ansiedade são partes do grande peso da vida. Precisamos evitar a atitude impaciente do personagem de Kazantzákis por duas razões: por nós mesmos, para não ficarmos com a consciência afetada e ou pesada; e pelo outro, para não produzir dor desnecessárias a nada e a ninguém. Além disso, o impaciente é uma pessoa afetada por afetos tristes, como ninguém está no controle de nada, e a impaciência é fruto do desejo do dominio, essa pessoa vive com raiva, ira e ódio das ações dos outros. Existe um ritmo de cada coisa e de cada pessoal. O risco da impaciência é a tristeza.

KAZANTZAKIS, Nikos. Zorba, o Grego. São Paulo: Abril Cultural, 1.

[Desenho do meu amigo Nertan Silva-Maia, intitulado DESEJO INDISCRETO DE CAPTURAR O FUTURO].

SENSIBILIDADE ARTISTICA E SENSIBILIDADE FILOSÓFICA

Atualmente tenho dedicado parte do meu tempo ouvindo as aulas de Gilles Deleuze, que estão disponíveis no site da Universidade Paris 8. Existem coisas muito engraçadas e divertidas nesses áudios, fruto do seu bom humor. Além disso, temos um potente pensamento em ação e a dinâmica ensino-aprendizagem em movimento, o que produz um tipo de gestação do conhecimento filosófico. Na aula do dia 06 de janeiro de 1981, Deleuze apresentou para seus alunos uma ideia interessante sobre sensibilidade filosófica. Essa ideia foi desenvolvida dentro da sua visão que filosofia é apenas um modo diferente do pensamento, não é superior e nem inferior aos outros dois modos do pensamento: arte e ciência. Assim, ao explicar a questão do gosto filosófico, a questão da sensibilidade filosófica, ele o fez produzindo um movimento de aproximação entre a sensibilidade filosófica e a sensibilidade artista, isto é, com o gosto artístico. Gostar é ser tocado, é sentir algo que nos provoca, é ser estimulado, é ganhar potencia de agir, isto é, potencializar a vida. Mas, é fundamental reconhecer que a sensibilidade artística é múltipla. A sensibilidade musical, nos diz Deleuze, “não é indiferenciada, não consiste apenas em dizer: ‘Eu gosto da música’. Isso também significa: eu tenho que fazer, estranhamente, por coisas que eu não me entendo, eu tenho que fazer particularmente com tal, tal … Ah, eu, é … Eu suponho … eu sou Mozart … Mozart ele me diz algo. É estranho, isso … Porque todo mundo, não é isso … Há outros que dirão não…” A pessoa se vê totalmente tocada por esse e não por todos os músicos. Porém, precisamos reconhecer que os outro não serão necessariamente impactados como fomos. A experiência humana é singular. Por isso, é necessário encontrar aquele músico que lhe fale ao coração, que toque sua sensibilidade. Mas, para Deleuze, isso não é exclusividade da arte. Ele afirma que precisamos encontrar autores que tem algo a nos dizer, que nos toque, que gostamos de ler. É necessário encontrar autores que precisamos ler. Mas isso não é só no campo literário, “na filosofia é a mesma coisa, há uma sensibilidade filosófica. De onde vem alguém? É também uma questão de moléculas. Que, se aplica a tudo […], bem, acontece que as moléculas de alguém serão atraídas, já serão, em certo sentido, cartesianas … Existe Cartesianos … Bem, eu entendo, um cartesiano é alguém que leu Descartes e quem está escrevendo livros sobre Descartes, mas isso não é muito interessante … Existem cartesianos, quando até, em um nível melhor … Consideram que Descartes lhes diz algo em seu ouvido, para eles, algo fundamental para a vida, incluindo a vida mais moderna. Bem, eu … eu tomo meu exemplo, realmente Descartes, não diz nada, nada, nada, nada … Isso cai em minhas mãos, isso me irrita. E, no entanto, não vou dizer que ele é um cara pobre, é óbvio que ele tem o gênio Descartes. De acordo, ele tem gênio, eu não tenho nada para fazer, eu, para minha conta … Ele nunca me disse nada. Bem … Então, como isso explica esse negócio de sensibilidade? Bom … Hegel … Hegel? O que é isso? Bom. O que significa essas relações moleculares … Eu defendo, aí, por relações moleculares com os autores que você lê. Encontre o que você gosta. Nunca gaste um segundo criticando alguma coisa ou alguém. Critique nunca, nunca, nunca. E se nós criticarmos você, você concorda, continue, huh, nada a fazer…”. Quando nos sensibilizamos filosoficamente, quando somos atraídos molecularmente, encontramos aquele pensador que nos potencializa a vida. Não significa assumir uma posição religiosa, não significa absolutamente ter a doutrina do pensador de cor, no coração. Claro que quando gostamos muito de um determinado músico, aprendemos as letras com muita facilidade… Cantamos como se fossemos os autores daquelas músicas, isso também acontece em outras areas do conhecimento. Deleuze mesmo afirma que: “Existem coisas, você tem que conhecê-las de cor. Seria muito bom conhecer a Ética de Spinoza de cor. Aprenda isso de cor (risos). Se, se houver textos que se aprende de cor, se há um em filosofia, é a Ética. Aprenda Kant de cor, sem sentido! É inútil. Aprenda de coração Spinoza, serve para a vida. Você diz para si mesmo, em todas as condições de vida, você diz oh bem … a que proposta se refere, isso? E há sempre um em Spinoza. Então, isso pode te servir muito”. Porém, não vamos com isso assumir uma postura de sacralização dos textos do pensador, mas quando encontramos o que gostamos de ler mergulhamos e não desejamos mais sair. Queremos devorar tudo o que ele escreveu e aprender de coração. Por isso, é tolice ficar lendo coisas que não funciona, não tem ligação com as nossas moléculas. Por isso, é necessário não perder tempo criticando, buscando apontar falhas no pensamento de autores que não nos dizem nada. Deleuze num desabafo afirma: “Acho que nada é mais triste em jovens dotados, em princípio, do que, para eles, envelhecerem sem terem encontrado os livros de que realmente gostaram. E geralmente isso, dá um temperamento, não para encontrar os livros que gostamos, ou para não gostar de nenhum, finalmente, e de repente, fazer o cientista em todos os livros … É uma coisa engraçada você se torna amargo … Você conhece o tipo de amargura do intelectual, ali, que se vinga dos autores por não ter conseguido encontrar aqueles que amava … Então … O ar de superioridade que ele tem por ser estúpido … Tudo isso é muito chato. Mas, você deve ter um relacionamento, no final, apenas com o que você gosta…”. Ninguém perde tempo ouvindo música que não gosta, filosofia é como música, não devemos perder tempo com aquelas que não nos atrai. “A filosofia faz parte da literatura e da arte em geral, dá exatamente as mesmas emoções”, mas apenas quando sentimos tocados pela ternura da escrita do pensador, porque vibramos com aquilo que toca nossa sensibilidade, com aquilo que nos atrai e nos compõe.

 

[Desenho de Nertan Silva-Maia, Gestando o conhecimento, obrigado meu amigo]

DELEUZE, A ARTE E O ATO DE RESISTÊNCIA

Para início de conversa podemos e devemos fazer aquelas questões recorrentes para quem trabalha com filosofia: O que é isso a filosofia? ou o que se faz quando se diz que está fazendo filosofia? ou o que pode a filosofia? São questões que não tem uma resposta única, as respostas muitas vezes são contraditórias entre si. Não existe consenso, por isso, para desenvolver uma palestra sobre Gilles Deleuze responder essas questões se impõe, pois ele tem um forma peculiar de compreender, fazer e operacionalizar a filosofia. Mas, mesmo não tendo uma única definição de filosofia, como se pode ver nas ciências, mesmo nas ciências humanas, pois, entre historiadores, geógrafos, sociólogos, apesar das diferenças e rivalidades de base teórico-metodológico, existe um mínimo de acordo na hora de definir o ofício de suas ciências, eles conseguem definir minimamente o que é história, o que é geografia, o que é sociologia. Isso, não acontece na filosofia. Apesar da dificuldade de definir a filosofia de forma univoca, pelo menos, podemos dizer que existe, entre os filósofos, uma constatação de uma dura realidade. A filosofia é um exercício proscrito em nossa sociedade, ela é uma disciplina exilado, pela hegemonia do mundo técnico-científico. A filosofia não tem espaço num mundo da prática, do utilitarismo e do tecnicismo exacerbado. Num mundo onde a ação é mais importante do que o pensamento, e digo pensamento e não reflexão, pois vocês verão quando nos aproximarmos da filosofia de Deleuze, que filosofia para ele não é reflexão de nada, mas ela é uma das modalidade do pensamento humano. No mundo da técnica a filosofia está excluída. Entretanto, não foi exclusividade dos séculos XIX, XX e XXI a tentativa de decretar a morte da filosofia. No período medieval a religião subordinou e subjugou o pensamento filosófico ao saber mais importante da época, qual seja: a Teologia. A filosofia era a serva da teologia. Podemos dizer que, ao longo de sua história, a filosofia já recebeu várias sentenças de morte. Só para exemplificar vou apresentar três dessas sentenças. Marx profetizou a morte da filosofia em sua decima primeira tese contra o filósofo alemão L. Feuerbach. Nessa tese Marx escreveu que até então os filósofos haviam se limitado e se preocupado em interpretar o mundo, mas agora a tarefa deles será transforma-lo. Marx com isso subordina o pensamento filosófico, as ideias filosóficas, a ação transformadora. Essa tese Marxiana ser fundamenta numa nova ideia de História. A visão materialista da história, história construída pelos homens e mulheres de carne e osso, sem interversão divina. Visão imanente da realidade sem apelo ou apego a qualquer forma de transcendência.  Não existe nada fora dessa realidade do aqui e agora. As ideias para Marx funcionam apenas quando produzem ou provocam ações transformadoras da realidade, aquilo que foi cunhada como práxis na literatura de linhagem marxista.

Outro profeta a morte da filosofia foi Stephen Hawking, este grande cientista que faleceu em março deste ano. Ele e Leonard Mlodinow no livro O Projeto monumental ou o Grande Projeto sentenciaram com todas as letras: “a filosofia está morta. Ela não tem acompanhado a evolução da ciência moderna, particularmente da física. Os cientistas se tornaram os portadores da tocha da descoberta, em nossa busca pelo conhecimento” (p.5). Será mesmo real essa constatação da morte da filosofia, pois não acompanhou as inovações da ciência? Tudo bem, que não podemos negar que nossa mentalidade é cientificista, mas será mesmo que a filosofia foi substituída pela ciência? Aqui parece uma reação ressentida de quem sentia uma certa arrogância da filosofia como mãe das ciências. A sensação que um certo tipo de filosofia, que se colocava como juíza e legitimadora do conhecimento, assumia essa postura de superioridade. Falsa, mas a filosofia que se compreende coo juíza do mundo, como uma grande intrometida, provocava essa sensação.

Além de Marx e Hawking, Martin Heidegger também colocou em pauta este tema da morte da filosofia. Numa conferencia intitulada O fim da filosofia e a tarefa do pensamento, proferida em abril de 1964, na cidade de Paris, Heidegger lançou duas questões:

  1. Em que medida entrou a filosofia, na época atual, em seu estágio final?
  2. Que tarefa ainda permanece reservada para o pensamento no fim da filosofia?

Em linhas gerais, a posição heideggeriana é que a filosofia perdeu seus espaço para o desenvolvimento técnico-científico. A sociedade da técnica descartou o pensamento metafísico.

Se em Marx o fim da filosofia se anunciou como supressão e transformação na práxis; em Hawking a filosofia não se atualizou e tornou-se obsoleta; em Heidegger a filosofia tem o último desafio de pensar a questão do pensamento, sendo sua última tarefa. Existe um conjunto de obras, artigos e livros debatendo essa temática espinhosa da morte do pensamento filosófico, o fim da metafísica. Ma, não vamos entrar nessa seara, pois para o nosso autor em questão, Gilles Deleuze, a morte da filosofia não é importante e, por isso, não lhe interessa. Para Deleuze isso é tolice, pois, independente das profecias da morte da filosofia, ela continua seguindo sua história realizando sua tarefa. Com Deleuze sabemos o que pode e o que faz a filosofia ontem e hoje. Ela, como um meteoro intempestivamente rompe com nosso estado natural de estupor mental e pensa por meio de conceitos. Compreender o que é o pensamento, isso sim é importante para Deleuze.

Para ele, o pensamento tem três grandes formas ou modos: o pensamento artístico, o pensamento científico, o pensamento filosófico. Arte, Ciência e a Filosofia sempre enfrentam o caos, traçando pelo pensamento um plano, esboçando um plano sobre o caos, produzindo um tipo de ordenamento no caos. O pensamento não e exclusividade da filosofia, da mesma forma que a criação não predomínio da ciência e da arte. Todas as três formas de pensamento são criadoras. A arte quando pensa cria perceptos e afetos; a ciência quando pensa cria, inventa, gera funções, leis, prospectos, proposições científicas; e, por fim, a filosofia quando pensa cria, trabalha, gera, inventa, seus conceitos” (CV, p.160). Ele ainda alerta que: “Não se dirá somente que os nomes próprios tem usos muito diferentes nas filosofias, ciências e artes … A filosofia procede por frases, mas não são sempre proposições que se extraem das frases em geral […] Das frases ou de um equivalente, a filosofia tira conceitos, que não se confundem com ideias gerais ou abstratas; enquanto que a ciência tira prospectos, proposições que não se confundem com juízos; e a arte tira perceptos e afectos, que também não se confundem com percepções ou sentimentos” (QÉPH, p.32-3). Ninguém, nem artista, nem cientista, nem filósofo, descobre nada num céu ou numa realidade, tudo é produção do pensamento. Ciência, arte e filosofia são todas inventivas, criadoras. Além disso, “a filosofia, a arte e a ciência entram em relações de ressonância mútua e em relações de troca, mas a cada vez por razões intrínsecas. É em função de sua evolução própria que elas percutem uma na outra. Neste sentido, é preciso considerar a filosofia, a arte e a ciência como espécies de linhas melódicas estrangeiras umas às outras e que não cessam de interferir entre si. A filosofia não tem aí nenhuma pseudoprimado de reflexão, e por conseguinte nenhuma inferioridade de criação. Criar conceitos não é menos difícil que criar novas combinações visuais, sonoras, ou criar funções científicas” (CV, 2013, p.160).

Podemos assegurar sem medo de errar, existe um território próprio da filosofia, quando se compreende que ela não é reflexão sobre algo, mas, sim que a filosofia cria, inventa, fabrica, gera seus produtos, seus conceitos. Eles não são dados, descobertos, achados. Para Deleuze, a filosofia tem sua tarefa específica e única. Ela é a única que trabalha com conceitos. Deleuze e Guattari escreveram: “A exclusividade da criação de conceitos assegura à filosofia uma função, mas não lhe dá nenhuma proeminência, nenhum privilégio, pois há outras maneiras de pensar e de criar, outros modos de idealição que não têm de passar por conceitos” (QÉPH, 2010, p.15), tais como vimos o pensamento científico e o pensamento artístico.

Além disso, Deleuze o tempo todo faz questão de destacar que, a filosofia não é contemplação, não é reflexão, não é comunicação, pois para contemplar seria necessário um mundo repleto de ideias prontas, acabas e eternas, tipo aquela da filosofia de matriz platônica; a filosofia não é reflexiva porque ninguém precisa da filosofia para refletir sobre nada. Deleuze mesmo afirma que seria cômico pensar que um matemático necessite de um filósofo para refletir sobre a matemática, ou qualquer outra coisa. Filosofia não é reflexão sobre a arte, o cinema, a música, a educação, o direito, a história, etc. Da mesma forma que, “a filosofia não encontra nenhum refúgio na comunicação, que não trabalha em potência a não ser de opiniões, para criar o consenso e não o conceito” (QÉPH, 2010, p.12). Essa perspectiva deleuziana bate de frente com a visão comum ou como um tipo de senso comum que atribui a filosofia o papel de reflexão sobre os problemas da realidade. Deleuze não aceita e nem acredita na visão que atribui a filosofia o papel de juíza no tribunal da razão. A filosofia para ele não está acima ou abaixo de nenhum tipo de conhecimento. Não existe uma superioridade ou inferioridade da filosofia em relação a ciência ou a arte. Não dá para aceitar a tolice da hierarquização dos conhecimentos tipo a elaborada pelo Comte.

Como representante de uma matriz de pensamento novo e inovador, Deleuze é um desconstrutor, demolidor, da filosofia da representação ou da filosofia da identidade. Ele produz uma filosofia denominada de filosofia da diferença, e combate essa filosofia da representação logo em seus primeiros trabalhos. O projeto da filosofia deleuziana não tem preocupação de descobrir se um filósofo tem ou não a verdade, para ele isso não é importante, a questão é se os conceitos criados pelo filósofo funcionam ou não. Além disso, ele não acompanha a compreensão clássica da verdade como correspondência da realidade, para ele isso é outro equívoco. O conceito, como produto do pensamento, como criação filosófica não é representação ou correspondência de nada. Segundo Deleuze e Guattari, o problema é que “os filósofos não se ocuparam o bastante com a natureza do conceito como realidade filosófica. Ele preferiram considerá-lo como um conhecimento ou uma representação dados, que se explicam por faculdades capazes de formá-los (abstração ou generalização) ou de utilizá-lo (juízo). Mas o conceito não é dado, é criado, está por criar; não é formado, ele próprio se põe em si mesmo, autoposição” (QÉPH, 2010, p.18).

Diante do que foi exposto até o momento, ainda temos duas questões que precisamos enfrentar: o que é pensar, ou o que é o pensamento? ou o que produz o pensamento?; a outra é o que é conceito? Pensamento e Conceito o que são? Sabemos que não é fácil responder essas questões, na verdade, não existe questão fácil na filosofia. O desafio é lançado o tempo todo, e precisamos ter coragem para colocar a maquinaria do pensar em funcionamento para descobrirmos as respostas. A preguiça mental e a covardia é que nos imobilizam. Rompendo com essas duas coisas teremos condições de compreender e explicar minimamente o que é uma e outra coisa.

O pensamento para Deleuze não é uma questão natural e nem uma questão de um método correto para pensarmos de forma clara e distinta. Nem Platão e nem Descartes. A filosofia deleuziana é antiplatonica e anticartesiana. Para ele o pensamento é involuntário, não é fruto de um desejo pessoal. O pensamento é intempestivo, surge como uma festa e é coisa rara. Ele é fruto de uma violência. Só pensamos quando sofremos uma agressão, e “todo pensamento torna-se [também] uma agressão” (DR, 2009, p.17). Para Deleuze, “o erro da filosofia é pressupor em nós uma boa vontade de pensar, um desejo, um amor natural pela verdade. […] a verdade nunca é o produto de uma boa vontade prévia, mas o resultado de uma violência sobre o pensamento […] A verdade depende de um encontro com alguma coisa que nos força a pensar e a procurar o que é verdadeiro. O acaso dos encontros, a pressão das coações é o que garante a necessidade daquilo que é pensado” (PS, 2010, p.15). Nessa busca pela verdade, o que o filósofo faz é interpretar, decifrar, explicar, traduzir. Isso faz o pensar um ato perigoso, por ser uma agressão e por retirada a pessoa do seu estado de estupor, de tranquilidade, de satisfação. O pensamento retira a pessoa de sua zona de segurança, de zona de conforto. O pensar é desterritorializante, pois nos deslocar de um dado território nos lançando para outros espaços inimagináveis. O pensar é sempre insatisfação, pensar é um ato de resistência. Assim, “não basta um boa vontade nem um método bem elaborado para ensinar a pensar, como não basta um amigo para nos aproximarmos do verdadeiro… As verdades da filosofia, [se é que existem], faltam a necessidade e a marca da necessidade. De fato, no diz Deleuze, a verdade não se dá, se trai; não se comunica, se interpreta; não é voluntária, é involuntária […] A busca da verdade é a aventura própria do involuntário. Sem algo que force a pensar, sem algo que violente o pensamento, este nada significa. Mais importante do que o pensamento é o que “dá que pensar”; mais importante do que o filósofo é o poeta” (PS, 2010, p.89).

Assim, para Deleuze e Guattari, “o pensamento é criação, não vontade de verdade” (QÉPH, p.67) e na sequencia ele levanta o seguinte questionamento: “Que violência se deve exercer sobre o pensamento para que nos tornemos capazes de pensar?” (QÉPH, p.68). Ao responder, ele de forma taxativa nos diz: “o que nos força a pensar é o signo. O signo é o objeto de um encontro, mas é precisamente a contingência do encontro que garante a necessidade daquilo que ele faz pensar. O ato de pensar não decorre de uma simples possibilidade natural; é, ao contrário, a única criação verdadeira. A criação é a gênese do ato de pensar no próprio pensamento. Ora, essa gênese, no diz Deleuze, implica alguma coisa que violenta o pensamento, que o tira de seu natural estupor, de suas possibilidades apenas abstratas. Pensar é sempre interpretar, isto é, explicar, desenvolver, decifrar, traduzir um signo” (PS, 2010, p.91). Após o encontro e a necessidade o pensamento entra em movimento de forma fortuita e inevitável, tipo o movimento peristáltico dos nossos órgãos internos.

Da mesma forma do pensamento, que é fruto da necessidade e do acaso do encontro, os conceitos como produtos do pensamento são criados para responder, interpretar, decifrar necessariamente um problema. Ele não é fruto do bel prazer do filósofo. O filósofo não acorda num dia de sol e pula da cama dizendo: hoje vou criar um conceito X. O conceito é criado por necessidade, é um reação concreta sobre a vida ordinária. Deleuze escreveu o seguinte: “os conceitos são singularidades que reagem sobre a vida ordinária, sobre o fluxos de pensamento ordinário ou cotidiano” (DRL, 2016, p.185). O conceito é um singularidade. Deleuze e Guattari acrescentam que “não há conceito simples. Todo conceito tem componentes, e se define por eles” (PHQÉ, 2010, p.23), para compreendermos um conceito temos que necessariamente mapear seus componentes, ou como Deleuze prefere, temos que decifrar o conceito, pois todo conceito tem uma cifra de seus componentes. Os conceitos são no mínimo duplo e jamais um conceito tem um número infinito de componentes, pois seria o próprio caos. Por isso, o conceito sempre terá um número finito de componentes. Assim, Deleuze e Guattari estabelecem a natureza dos conceitos ou os critérios definidores dos conceitos no seu processo de criação. Quero destacar alguns pontos sobre a natureza do conceito para eles:

Os conceitos “não são jamais criados do nada”, “cada conceito remete a outros conceitos, não somente em sua história, mas em seu devir ou suas conexões presentes. Cada conceito tem componentes que podem ser tomados como conceitos” (QÉPH, p.27). E estes componentes são inseparáveis no conceito, o que define a sua própria consistência interna, seus componentes são distintos e heterogêneos, e isso produz zonas de vizinhanças entre eles.

Cada conceito é considerado como o ponto de coincidência, de condensação ou de acumulação de seus próprios componentes, e cada componente, nos dizem Deleuze e Guattari, é um traço intensivo, uma ordenada intensiva pura e simples singularidade. Então para Deleuze e Guattari, “o conceito define-se pela inseparabilidade de um número finito de componentes heterogêneos percorridos por um ponto em sobrevoo absoluto, à velocidade infinita… O conceito é bem ato de pensamento, pensamento operando em velocidade infinita” (QÉPH, p.29). E ainda acrescentam: “Os conceitos são centros de vibrações, cada um em si mesmo e uns em relação aos outro. É por isso que tudo ressoa, em lugar de se seguir ou de se corresponder” (QÉPH, p.31).

Por fim, os conceitos são personagens (QÉPH, p.32) e, por isso, a história da filosofia é, de acordo com Deleuze e Guattari, a história dos personagens conceituais vivendo um movimento de entrada e saída de cena. Com roupagem nova, com atuação diferente em cada momento da história. Segundo eles, “a história da filosofia é inteiramente desinteressante se não se propuser a despertar um conceito adormecido, a relançá-lo numa nova cena, mesmo a preço de voltá-lo contra ele mesmo” (QÉPH, p.101).

E é neste sentido, de uma história da filosofia como história dos conceitos, que Deleuze escreveu, em Diferença e Repetição, que:

“um livro de Filosofia deve ser, por um lado, um tipo muito particular de romance policial e, por outro, uma espécie de ficção científica. Por romance policial, queremos dizer que os conceitos devem intervir, com uma zona de presença, para resolver uma situação local. Modificam-se com os problemas. Eles têm esferas de influência em que, como veremos, se exercem em relação a dramas e por meio de uma certa crueldade. Devem ter uma coerência entre si, mas tal coerência não deve vir deles. Devem receber sua coerência de outro lugar” (DR, p.17). E Deleuze explica que por “ficção científica também no sentido em que os pontos fracos se revelam. Como escrever senão sobre aquilo que não se sabe ou que se sabe mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro. É só deste modo que somos determinados a escrever. Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois, ou melhor, torná-la impossível. Talvez tenhamos aí, entre a escrita e a ignorância, uma relação ainda mais ameaçadora que a relação geralmente apontada entre a escrita e a morte, entre a escrita e o silêncio. Falamos, pois de ciência, mas de uma maneira que, infelizmente, sentimos não ser científica” (DR, p.18).

Para ele devemos ler os livros de filosofia como romance policial, ou como ficção científica, compreendendo os conceitos como personagens na trama do livro. O que esta em jogo também é a forma como Deleuze compreende a escrita filosófica. Para ele, a escrita deve produzir uma alegria em quem entra na aventura da leitura filosófica. Por isso, pensando a produção filosófica de Michel Foucault, em particular referindo-se sobre o livro Vigiar e Punir, Deleuze nos diz:

“Foucault nunca encarou a escritura como um objetivo, como um fim. É exatamente isso que faz dele um grande escritor, que coloca no que escreve uma alegria cada vez maior, um riso cada vez mais evidente. Divina comédia das punições: [assim se pode compreender o livro Vigiar e Punir. Ele é a Divina Comédia das punições. E segue sua argumentação, justificando que] é um direito elementar do leitor ficar fascinado até as gargalhadas diante de tantas invenções perversas, tantos discursos cínicos, tantos horrores minuciosos” … Deleuze explica o que significa essa alegria no horror. Segundo ele, essa postura vem de Vallès, ele “já invocava uma alegria no horror, característica dos revolucionários, que opunha à horrível alegria dos carrascos. Basta que o ódio esteja suficientemente vivo para que dele se possa tirar alguma coisa, uma grande alegria, não de ambivalência, não a alegria de odiar, mas a alegria de querer destruir aquilo que mutila a vida”. A alegria da resistência, da transgressão, da luta contra a situação que sufoca a vida. “O livro de Foucault, no diz Deleuze, está repleto de uma alegria, de um júbilo que se mistura ao esplendor do estilo e a política” (F, p.33). A escrita foucaultiana é uma escrita repleta de alegria, é um ato de resistência. Não podemos esquecer que o livro em questão, o Vigiar e Punir é um livro militante, de alguém que lutava contra a brutal situação dos presídios franceses do século XX [Foucault com certeza ficaria horrorizado com as condições dos presídios brasileiros]. Diante de um problema concreto, Foucault consegue neste livro apresentar uma nova visão sobre o poder, podemos afirmar que ele produziu ou construção um novo conceito de poder. Deleuze, num certo entusiasmo, nos diz: “Ele dever ter sido o primeiro a inventar essa nova concepção de poder, que buscávamos, mas não conseguíamos encontrar nem anunciar” (F, p.34). Poder como algo que “se exerce mais do que se possui, não é o privilégio adquirido ou conservado da classe dominante, mas o efeito de conjunto de suas posições estratégicas” (F, p.35). De acordo com Deleuze, “Umas das ideias essenciais de Vigiar e Punir é que as sociedades modernas podem ser definidas como sociedades disciplinares, mas a disciplina não pode ser identificada com uma instituição nem com um aparelho, exatamente porque ela é um tipo de poder, uma tecnologia, que atravessa todas as espécies de aparelhos e de instituições para reuni-los, prolonga-los, fazê-los convergir, fazer com que se apliquem de um novo modo” (F, p.35). Essa inovação conceitual só foi possível porque Foucault tinha um problema concreto para pensar, não um problema novo, mas um problema mal colocado, mal resolvido. Pois, “na filosofia, não se cria conceitos, a não ser em função dos problemas que se consideram mal vistos ou mal colocados” (QÉPH, p.28), e quando ela faz este movimento criador, a filosofia inventa também “modos de existências ou possibilidade de vida”, numa perspectiva bem Nietzschiana (QÉPH, p.88).

Agora vamos entrar na última parte dessa nossa conversa sobre Deleuze, arte e ato de resistência. É preciso dizer que o debate ou construção do conceito deleuziano de resistência carrega uma grande dificuldade, pois não foi desenvolvido de forma sistemática em uma ou mais obras do Deleuze, esta pulverizado no conjunto de sua produção filosófica. E é visível que nesta produção conceitual Deleuze articula o tema da resistência em dois campos:

  1. O conceito resistência liga-se ao campo da política: poder, sociedade de controle, disciplina.
  2. Deleuze faz também uma assimilação do ato de resistência e o ato de criação ao campo da estética. Porém,  não podemos esquecer o que foi dito no início dessa conversa, estética não é filosofia da arte, pois, quando Deleuze pensar a arte não faz tradicionalmente filosofia da arte, compreendida como uma reflexão sobre a arte. Para compreendermos de forma preliminar o que Deleuze faz, vou centralizar nossa analise em dois textos: O que é o ato de criação? e o Post-scriptum sobre as sociedades de controle.

Como vimos, para Deleuze, a filosofia não é um ato de comunicação, assim ter uma ideia, em todas as formas (artístico, científico, filosófico), também não é da ordem da comunicação, pois “a comunicação é a transmissão e a propagação de uma informação” (DRL, p.339) e a informação “é um conjunto de palavras de ordem. Quando lhes informam, estão dizendo aquilo em que vocês supostamente devem acreditar” (DRL, p.339). Quando querem nos controlar, ou propor mudança de rumo na vida, ou devir nosso modo de agir, nos dizem que precisamos nos informar sobre isso ou aquilo. É como se quisessem dar um ordem, você precisa se informar para agir melhor. O melhor exemplo de informação como ordem, como comunicação, são as declarações policiais. Deleuze nos diz que: “As declarações de polícia são chamadas, com razão, de comunicados. Comunicam-nos informação, dizem-nos aquilo em que supostamente somos capazes de acreditar, ou em que devemos acreditar, ou em que somos obrigados a acreditar. Nem mesmo acreditar, mas fazer como que se acreditássemos. Não nos exigem acreditar, mas que nos comportemos como se acreditássemos. É isso a informação, a comunicação e, independentemente dessas palavras de ordem e de sua transmissão, não há informação, não há comunicação. O que equivale a dizer que a informação é exatamente o sistema do controle” (DRL, p.339-40). E não podemos esquecer que estamos vivendo numa sociedade de controle.

Deleuze escreveu um artigo, publicado em maio de 1990, sobre a sociedade de controle. Nele descrever em três pontos o desenvolvimento das sociedades de soberanias, passando pelas sociedades disciplinares até chegarmos as sociedades de controle. Mostra a brilhante analise de Foucault, no primeiro ponto a perspectiva histórica, o segundo a lógica de funcionamento e, no terceiro ponto, o programa da sociedade de controle. Antes desse artigo, Deleuze proferiu uma conferência para um grupo de cinéfilos, cineastas, críticos de cinema e amantes da sétima arte, no dia 17 de março de 1987, e que tinha como título original “Avoir une idée por cinéma“, posteriormente foi transcrita e publicada numa revista com o título “O que é o ato de criação?”. Essa conferência é de fácil acesso na rede mundial de computadores, vocês podem ver e ouvir Deleuze nessa palestra ainda hoje. São as vantagens de nossa época. E nessa palestra ele nos diz:

“Entramos em uma sociedade de controle que são definidas muito diferentemente das sociedades disciplina. Os que velam pelo nosso bem não têm ou não terão mais necessidade de meios de confinamento. Isso tudo, as prisões, as escolas, os hospitais, já são locais permanentes de discussão. Não seria melhor expandir os atendimentos a domicílio? … Não haveria outros meios para punir as pessoas, tirando as prisões? As sociedades de controle não mais passarão por meios de confinamento. Nem mesmo pela escola… (DRL, p.340-1). O certo é que, nos diz o filósofo francês, “encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento, prisão, hospital, fábrica, escola, família. A família é um interior, em crise como qualquer outro interior, escolar, profissional, etc.. Os ministros competentes não param de anunciar reformas supostamente necessárias. Reformar a escola, reformar a indústria, reformar o hospital, o exército, a prisão; mas todos sabem que essas instituições estão condenadas, num prazo mais ou menos longo. Trata-se apenas de gerir sua agonia e ocupar as pessoas, até a instalação das novas forças que se anunciam. São as sociedades de controle que estão substituindo as sociedades disciplinares … Por exemplo, na crise do hospital como meio de confinamento, a setorização, os hospitais-dia, o atendimento a domicílio puderam marcar de início novas liberdades, mas também passaram a integrar mecanismos de controle que rivalizam com os mais duros confinamentos. Não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas” (CV, p.224). “Um controle não é uma disciplina” (DRL, p.341), mas a informação é a base do sistema. Por isso, Deleuze nos diz: “vamos supor que a informação seja isso; o sistema controlado das palavras de ordem que têm curso em uma dada sociedade” (DRL, p.341). Não bastaria produzir uma contrainformação para neutralizar o controle, neutralizar a ordem de comando. Para o pensador francês, “o que é preciso constatar é que a contrainformação nunca foi suficiente para fazer o que quer que seja” (DRL, p.341). A contrainformação não incomoda o poder. Ela em si mesmo é infrutífera, é inócua, é estérea. Entretanto, e isso é muito importante, a “contrainformação só é efetiva quando devém, ou quando ela é, um ato de resistência. Mas não podemos esquecer o ato de resistência não é informação e nem contrainformação. Da mesma forma, que a obra de arte, produto de um ato de criação, não tem nada de ato de comunicação. “A obra de arte não é um instrumento de comunicação”, no diz Deleuze. Não é e nem tem a menor informação. A arte, para Deleuze, é ato de resistência.

“Há, nos diz ele, uma afinidade fundamental entre a obra de arte e o ato de resistência. Aí, sim ela tem algo a fazer com a informação e com a comunicação, a título de ato de resistência” (DRL, p.341).

E, na sequência de sua palestra “O que é ato de Criação”, Deleuze questiona:

“Que entrelace misterioso é esse entre uma obra de arte e um ato de resistência, visto que os homens que resistem não tem nem o tempo nem, as vezes, a cultura, ambos necessários para se ter o menor entrelace com a arte?” (DRL, p.342).

E ele responde de forma taxativa: NÃO SEI.

Mas, mesmo dizendo ignorar qual seria esta misteriosa ligação, Deleuze sinaliza um tipo de resposta provisória. Ele lembra de uma definição de arte de Malraux, que numa sentença simples afirmar: “a arte é a única coisa que resiste à morte” (DRL, p.342). E mesmo não sendo somente ela a resistir é daí que temos, para Deleuze, “o entrelace tão estreito entre o ato de resistência e a obra de arte. Nem todo ato de resistência é uma obra de arte, embora, de uma certa maneira, ela o é. Nem toda obra de arte é um ato de resistência e, no entanto, de uma certa maneira, ela o é” (DRL, p.342).

Arte e resistência vivem um tipo mágico de dança pela vida. Resistência é re-existência. Arte e resistência são as únicas coisas que resistem à morte, pois, como escreveu Deleuze, “o ato de resistência resiste à morte sob a forma de uma obra de arte ou sob a forma de uma luta dos homens” (DRL, p.342) pela vida.

O ato de resistir aos regimes fascista, na luta, na insurreições, na busca de uma linha de fuga, para construirmos nova vida superando as crises. Só os resistentes vivem no mundo, fazendo da vida uma obra de arte. Como escreveu o romancista Dan Brawn, em seu último livro, Origem: “Só existe um modo de triunfar sobre a morte: tornando nossa vida uma obra-prima” (2017, p.299).

Numa entrevista recente, a professora da UFMG Maria Esther Maciel, no lançamento de uma revista de literatura e arte que se propõe como instrumento de resistência às radicalizações do mundo contemporâneo, ela afirmou que “a literatura possibilita vasculhar as dobras da realidade”, linguagem marcadamente deleuziana. E, ela justifica que lançar uma revista focando exclusivamente produções literárias e artística foi motivada por “uma necessidade de estabelecer posição frente à situação que predomina no pais”. E que posição é essa? Questiona a professora Maciel. “É a de tomar a literatura e as artes como um ato de resistência ao que está acontecendo no Brasil e, também, no mundo”. Só existe resistência como luta contra algo concreto, não existe resistência abstrata. Por isso, a literatura e as artes lutam contra o estado de coisa que estamos vivenciando. “Trata-se de uma posição contra o dogmatismo, contra a polarização, contra a mediocrização; trata-se de uma maneira de resistir a um cenário de intolerância, de desmandos. Penso que estamos muito intoxicados de realidade, então a literatura surge como esse espaço para o exercício da imaginação, da liberdade, da multiplicidade, fora dos cerceamentos ideológicos, da polarizações” binárias, de uma falsa moralidade. Arte como ato de resistência. Literatura como uma arma para combater a tentativa de planificação do pensamento.

Essa entrevista da professora Maciel me fez lembrar de uma frase, que é uma palavra de ordem do movimento de maio de 1968: “Um pouco de possível, senão eu sufoco” (DRL, p.246). Este grito de socorro, quase dilacerante, atribuída a Michel Foucault nas redes sócias e, até mesmo, em alguns textos acadêmicos expressa uma posição de resistência ao que Maciel chamou de intoxicação de realidade, a realidade sufocando a vida. “Um pouco de possível, senão eu sufoco” é a constatação que estamos sufocados de realidade proto-fascista. A literatura e as artes, quase sempre perseguidas e censuradas, possuem uma potência desintoxicaste. Ela nos oferece um folego saudável. A literatura é saúde para a vida sufocada por uma realidade adoecida e debilitada. É possível criar linhas de fuga para escaparmos dessa situação e essa possibilidade está ligada a tripla definição de escrever: “escrever é lutar, resistir; escrever é vir-a-ser; escrever é cartografar” (F, p.53). Mas, para exercer essa tripla função é necessário conectar três pontos: a criatividade, a mutação, a resistência. A arte reinventa a realidade, vasculhando as dobras dessa realidade sufocante. A arte é ato de resistência.

Para finalizar, assim como existe um interlace entre arte e ato de resistência, existe também uma conexão entre arte e filosofia. Como frutos do pensamento, que por sua vez é fruto de uma agressão. Arte e filosofia devem agredir para fazer pensar. Deleuze, em seu livro sobre Nietzsche, expõe esta posição da filosofia como agressora. Ele escreveu: A filosofia [como ato de resistência] “não serve nem ao Estado nem  à Igreja, que tem suas próprias preocupações e interesses. A filosofia não serve a qualquer poder estabelecido”. Ela é sempre instituinte, processo, devir.  “A filosofia serve para afligir. A filosofia que não aflige ninguém e não contraria ninguém não é uma filosofia”. No mesmo sentido, podemos dizer que a arte contemporânea também tem esse papel. Numa ressonância incrível com essa ideia nietzschideleuziana, podemos ouvir numa narrativa no início do quarto episódio da segunda temporada da série “13 reason why”, a seguinte definição: “uma obra de arte só é boa se surgir da urgência, da necessidade, da carência. Pode ser uma necessidade política, pessoal, ou, idealmente, ambas. A arte deve confrontar, agredir. Deve chocar e assustar você”. Parece até que o cineasta esta descrevendo a visão deleuziana de filosofia.

Filosofia e arte estão conectadas, são potencias para agredir e não para consolar ou agradar. Desta forma que podem servir como ato de resistência.

Isto basta para começo de conversa.

Muito obrigado!

[Palestra ministrada, dia 21 de Maio de 2018, no Ciclo de Palestra do Projeto de Extensão na Universidade Estadual de Goiás – Campus Goianésia.

O desenho foi produzido pelo meu amigo Nertan e enviado para ilustrar esse texto, o titulo do desenho é Resistência, quero deixar aqui meu agradecimento a ele].

 

REFERÊNCIAS:

DELEUZE, Gilles. Proust e os signos – PS.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição – DR.

DELEUZE, Gilles. Dois regimes de loucos – DRL.

DELEUZE, Gilles. Conversações – CV.

DELEUZE, Gilles. Foucault – F.

DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. – NF.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? – QÉPH.

BROWN, Dan. Origem. São Paulo: Arqueiro, 2017.

CINQUENTA ANOS DEPOIS: MAIO DE 1968 AINDA NÃO OCORREU

Em 1984, Deleuze e Guattari publicaram um artigo intitulado “Maio de 68 não ocorreu” é impressionante o sabor de atualidade da analise realizada por eles após tanto tempo. Para Deleuze e Guattari, nos fenômenos históricos “sempre há uma parte de acontecimento, irredutível aos determinismos sociais, às séries causais”. Só os renegados, nos dizem Deleuze e Guattari, afirmam que isso ou aquilo está ultrapassado, “mas o próprio acontecimento, por mais que seja antigo, não se deixa ultrapassar: ele é abertura de possível. Ele passa no interior dos indivíduos tanto quanto na espessura de uma sociedade”. O acontecimento é “um estado instável que abre um novo campo de possíveis”, pois “o possível não preexiste, ele é criado pelo acontecimento”. Para os pensadores franceses, o maio de 1968 pertence a ordem dos acontecimentos puros, “livre de toda causalidade normal ou normativa. Sua história é uma sucessão de instabilidades e de flutuações amplificadas. Houve muitas agitações, gesticulações, discursos, besteiras, ilusões em 68, mas não é isso que conta. O que conta, nos dizem Deleuze e Guattari, é que foi um fenômeno de vidência, como se uma sociedade visse também a possibilidade de outra coisa”. É a viabilização de uma outra ordem de coisa, maio de 68 foi um grito coletivo por uma nova ordem social, marcada numa frase quase delirante, um pedido de socorro, de uma sociedade sufocada por um tipo de sistema asfixiante: “Um pouco de possível, senão sufoco“.

Mas, “quando uma mutação social aparece, não basta tirar suas consequências ou seus efeitos, segundo linhas de causalidades econômicas e políticas. É preciso que a sociedade seja capaz de formar agenciamentos coletivos que correspondam à nova subjetividade, de tal maneira que ela queira a mutação. É isso: uma verdadeira reconversão”. Porém, de acordo com Deleuze e Guattari, maio de 68 não ocorreu, porque “a sociedade francesa mostrou uma impotência radical para operar uma reconversão subjetiva no nível coletivo, tal como 68 exigia”. Assim, ao contrário do que se pensa, “maio de 68 não foi consequência de uma crise, tampouco a reação a uma crise. É antes o inverso. É a crise atual [não podemos esquecer que eles estão referindo-se a crise dos anos de 1980] na França que decorreu diretamente na incapacidade da sociedade francesa de assimilar o maio de 68”. Com essa impotência e incapacidade para agenciar uma nova subjetividade coletiva, “o possível foi continuamente fechado”. Apesar disso, Deleuze e Guattari afirmam que “topamos em toda parte com os filhos de maio de 68, eles mesmos o ignoram, e cada país, à sua maneira, produz os seus. A situação deles não é brilhante […][Mas] eles mantêm uma abertura, um possível”, pois de certa forma todos ainda estamos atravessados pelos gritos de maio de 1968. Atualmente estamos vivendo situações de abandono similares aquelas apontadas por Deleuze e Guattari no inicio da década de 1980: a expansão do fundamentalismo, a crise da principal matriz energética mundial (o petróleo), o desemprego, a questão da aposentadoria, entre outras situações. E, do mesmo modo, sem compreender qual seria a melhor saída, os lideres de ontem e de hoje apresentam a única reconversão subjetiva a de matriz “de uma capitalismo selvagem à maneira americana”… Antes e agora nosso lideres não perceberam que “só há solução se for criativa. São essas reconversões criativas que contribuiriam para resolver a crise atual e assumiriam o resgate de um maio de 68 generalizado,” nos afirmam Deleuze e Guattari. Maio de 1968 cinquenta anos depois ainda não ocorreu, estamos até o momento gritando asfixiados: “Um pouco de possível, senão sufoco“.

DELEUZE; Gilles; GUATTARI, Félix. Maio de 68 não ocorreu. In: DELEUZE, Gilles. Dois regimes de loucos: textos e entrevistas (1975-1995). São Paulo: Editora 34, 2016. p.245-8.

O CORTADOR DE HÓSTIAS DE CLARA DAWN: UM LIVRO DE RESISTÊNCIA

Para Deleuze arte é alegria, ou há alegria na obra de arte, ou então não é obra de arte. Arte é sempre alegre mesmo os dramas e tragédias. Ele nos diz que o tema pode ser feio, pode ter qualidade aterrorizante, desesperadora, quase repugnante … Mas tudo isso é estranhamente varrida pela alegria da obra de arte. Nenhum artista, continuam dizendo Deleuze, nem mesmo o mais desesperado, produziu uma obra de arte sem sentir essa estranha alegria do ato de criação. Não tenho dúvida, a gestação do livro O cortador de hóstias produziu está estranha alegria em sua autora. Este livro é um romance trágico. Dawn produziu um romance a partir de temas dolorosos: violência infantil e abandono. Ela conseguiu narrar com traços poeticos uma tragédia, nos oferecendo uma leitura envolvente, numa linguagem elegante e de narrativa ousada. Acompanho a produção da escritora há algum tempo, e posso afirmar que existe uma maturidade na escrita de Clara neste livro. Vários aspectos revelam isso, em comparação com as obras anteriores, é possivel perceber está metamorfose na estrutura narrativa e na erudição da escritora. O texto dessa tragédia é constituído de muitas vozes , múltiplas vozes se fazem presentes, seja em frase incríveis que lembra alguns filósofos sentenciando máximas para a vida, seja nas epígrafes [poesias] de abertura das partes do livros. Só para exemplificar, numa narrativa de Venceslau, ela escreveu: “quando não se tem sonhos, é mais cômodo viver o sonho alheio. Não se pode ter sonhos … quando se é abandonado” e, ela segue a fala de Venceslau, “tudo que o inferno representa está contido na palavra abandono”. E de fato, o abandono é infernal, pois, muitas vezes, por sua intensidade retira da pessoa até a possiblidade de sonhar e, por isso, ela pode até desistir da vida e deixar de resistir e lutar contra as adversidades fruto do abandono. Numa elegância impressionante a autora vai tecendo sua trama.
O romance de Clara Dawn não tem diálogos, é composto por quatro narradores, quatro vozes falando de forma intercalada: Flor Maria narra sua desventuras da vida; Venceslau, descreve suas dores e dramas existencias, que são confissões de um homem apaixonado, num drama entre a fé e o pecado; um narrador observador externo, que faz as vezes de um contador de história, narrando as reações dos personagens e descrevendo os ambientes, situações e contextos da trama; e, por fim, os fragmentos dos depoimentos do Cortador de hóstias a um delegado invisivel e mudo. Os depoimentos do Cortador de Hóstias apesar da brevidade são impactantes, pois dão naúseas nos leitores mais sensiveis. Clara Dawn com um bisture revela as entranhas de uma mente doentia do pedófilo. Ela mostra a maquinaria mental dessa criatura abominável, seus desejos e taras, revelando sua alma apodrecida e dissimulada, que se escondia  socialmente, no ofício de cortador de hóstias, um homem religioso. Ele era na verdade um ser despresível, não tinha nem nome, era apenas o cortador de hóstias, o filho do diabo. Era um pai sem nome. Flor Maria nos diz: Minha mãe o chamava de Nó. “Eu nunca quis saber o que significava Nó. Um homem que vende as próprias filhas não deve mesmo merecer um nome”. Não nomear o seu carrasco era também uma estratégia de resistência, não humanizar o monstro. Podemos afirmar que este romance de Clara Dawn é um ato de resistência, um grito de alerta, para afirmar que existe vida mesmo depois de uma tragédia. Além de não nomear o carrasco como ato de resistência, Flor Maria encontrou na leitura uma forma de resistir, para não desistir, da brutalidade de sua vida. Leitura como refúgio. O próprio Machado de Assis, em Memórias Póstumas, escreveu que “o leitor não se refugia no livro, senão para escapar à vida”. Nas leituras Flor Maria escapava das dores, nelas vivia outras vidas, num tipo de rota de fuga, num Ato de resistência. O leitor acompanha a história, os delirios e sonhos de Flor Maria. Apesar de se tratar de uma história eivada de tristeza, existe um estranha alegria na leitura da obra. A grandeza do livro de Dawn está na sultileza e delicadeza de sua escrita. Ela conta uma história violenta e brutal sem violentar seus leitores, mas, isso não significa que o leitor não sinta as dores e os sofrimentos dos personagens, pelo contrário, sente uma dupla afecção, por um lado, sente as dores de Maria e, por outro, a força da Flor. Afinal, a fortaleza da Flor Maria não estava em não sentir dor, mas em resistir, em lutar, em seguir, pois como diz a autora: “Forte não é ser imune à dor, mas seguir adiante apesar de sentí-la”.
Recomendo essa leitura à todos!

 

VIDA VIVIDA NÃO É A VIDA SONHADA

Compreendo que a vida vivida nem sempre é a vida sonhada, isto é, a vida que temos não é necessariamente a que queríamos ou sonhávamos na infância ou juventude, entretanto, tal situação real não deveria provocar revolta e nem outros sentimentos de humilhação, impotência ou fracasso, pois, uma coisa é certa, você não é a única pessoa no Planeta que não conseguiu transformar o sonho em realidade e, além disso, ninguém é culpado por tal situação, isto é, ninguém é responsável pela vida que você tem. O problema é que, muitas vezes, nos deixamos ser sequestrados por nossas emoções e começamos como loucos reféns a culpabilizar Deus e o mundo pela nossa situação. Olhamos para o espelho da vida e não gostamos da imagem refletida, diante das cicatrizes das feridas produzidas pelo tempo, quero responsabilizar alguém por cada uma daquelas marcas no meu corpo refletido no espelho. Neste momento de sequestro emocional, quando nos sentimos contrariados, temos reações irracionais. O lado animal, o monstro que dormitava em nosso universo interior acorda, e lança com fúria tudo para fora, vomitamos nossas frustrações em todos. Como seres reativos e de forma tola querendo nos livrar das dores do mundo responsabilizando os outros. Neste instante de insensatez, agimos com estupidez. “Falamos o que nunca deveria ser dito por ninguém”. O questão é que não existe culpado, a vida é marcada pelo sofrimento, pela dor e pela solidão. “Mas não se preocupe meu amigo; Com os horrores que eu lhe digo; Isso é somente uma canção; A vida realmente é diferente; Quer dizer: Ao vivo é muito pior”, canta o poeta Belchior. Temos que aprender a administrar tal situação, saber lidar com as dores do mundo é a grande arte do viver. A vida é sofrimento, e temos que ter maturidade para perceber que não existe culpado por tal situação. Apenas aprender a conviver com cada mal no seu momento. Aprender a viver a própria vida e cada dia por vez. Sem medo, sem angustia. Cada momento de uma vez, como disse Jesus: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal”. O maior problema é querer com as preocupações antecipar o mal, como se fosse possível mudar a condição humana. Nossas preocupações com um futuro, o tempo que ainda não existe, que ninguém pode garantir que virá, seja para o bem ou para o mal, muitas vezes, é o maior problema de nossa existência. Problema imaginário, pois ainda não existe. Abdicamos de viver o presente sonhando com um futuro incerto. Outro problema é a idealização do passado. O tempo que já foi, que não será nunca mais, pois ninguém consegue voltar no tempo, se vive, se gosta, se deseja, se realiza, se tem prazer no agora, não no ontem, como canta divinamente a Marina Lima: ” os momentos felizes Não estão escondidos Nem no passado e nem no futuro”. Não podemos, viver o passado como se ele determinasse o presente ou resolvesse a incerteza do por vir, isto é tolice. A partir de nossas experiências vivadas ou sofridas, pensamos e nos iludimos que temos a formula da existência. Ledo engano. Não existe experiência no mundo que nos habilite a sempre acertar nas escolhas. As escolhas são frutos do acaso, ninguém tem certeza, apenas escolhemos. A experiência neste caso apenas nos revela que tudo tem metade de chance de dar certo e, a outra, de dar errado. Basta olhar nas múltiplas escolhas que já fizemos como isto é a realidade da vida. Por isso, sem medo de errar, podemos dizer: Viver é se lançar neste mundo das possibilidades. Estamos todos na mesma roda da vida ou roda da fortuna, por isso, temos que aprender a conviver com tal situação… Tentado, lutando e fazer o melhor que podemos. Não temos o controle, este é um problema do mundo da possibilidade. Tudo é possível. Quando a roda da fortuna gira tudo pode acontecer. A vida é controlada por uma vontade cega e caótica. Não é a nossa vontade, nosso desejo, nosso sonho, nossa expectativa que preside o rumo de nossa existência. Como o vento, a vida caminha independente de nossa vontade pessoal. É preciso aceitar essa situação e viver a vida como ela é.

A VIDA E A SOMBRA

É no crepúsculo que a vida acontece, na luminosa vida social apenas revelamos a sombra do que realmente somos. As pessoas não se mostram, não se revelam na totalidade como mecanismo de sobrevivência na selva da vida social. Por isso, quando as pessoas fazem determinadas coisas que nunca imaginamos que seria capaz de fazer o que fez, a surpresa surge como uma erupção vulcânica, pois, naquele instante ela saiu da sombra, se revelou. Como escreveu Marcel Proust, no Caminho de Guermantes, “uma pessoa não está… nítida e imóvel diante dos nossos olhos, com as suas qualidades, os seus defeitos, os seus projetos, as suas intenções para conosco (como um jardim que contemplamos, com todos os seus canteiros, através de um gradil), MAS É UMA SOMBRA em que não podemos jamais penetrar, para a qual não existe conhecimento direto, a cujo respeito formamos inúmeras crenças, com auxílio de palavras e até de atos, palavras e atos que só nos fornecem informações insuficientes e alias contraditórias, uma sombra onde podemos alternadamente imaginar, com a mesma verossimilhança, que brilham o ódio e o amor”. Na dinâmica das sombras a vida social como um rio flui, somos sombras para os outros na mesma medida que eles são para mim.  Sombras impenetráveis, temos sempre uma visão deformada do outro. O poeta argentino Jorge Luís Borges no seu livro Elogio da sombra, escreveu o seguinte poema:

 

HERÁCLITO

“O segundo crepúsculo.

A noite que mergulha no sono

A purificação e o esquecimento.

O primeiro crepúsculo.

A manhã que foi a aurora.

O dia que foi a manhã.

O dia numeroso que será a tarde desgastada.

O segundo crepúsculo.

Esse outro hábito do tempo, a noite.

A purificação e o esquecimento.

O primeiro crepúsculo…

A aurora sigilosa e na aurora a inquietude do grego.

Que trama é esta do será, do é e do foi?

Que rio é este pelo qual flui o Ganges?

Que rio é este cuja fonte é inconcebível?

Que rio é este que arrasta mitologias e espadas?

É inútil que durma.

Corre no sonho, no deserto, num porão.

O rio me arrebata e sou esse rio.

De matéria perecível fui feito, de misterioso tempo.

Talvez o manancial esteja em mim.

Talvez de minha sombra, fatais e ilusórios, surjam os dias”.

 

O título não poderia mais apropriado para a poesia do Borges: Heráclito é o filósofo da aurora da filosofia grega considerado o enigmático, pois seus escritos eram e ainda os são enigmas. Escreveu em forma de sentenças, aforismas e máximas. Heráclito com suas sentenças lembra o animal mitológico a esfinge com sua provocação: Decifra-me ou te devoro? Somos sombras, somos rios em movimentos, somos indecifráveis, pois somos mutantes. Não lamente, pois você sempre será apenas a sombra do amigo, do pai, do filho, etc…. que você acreditava ser. Somos sombras, pois somos rios caudalosos, turvos e violentos. Como escreveu o poeta Paulo Ricardo, da banda RPM, em sua música Olhar 43: “ É um lago negro o seu olhar; É água turva de beber, se envenenar”.

 

COMO MANTER UMA AMIZADE

Spinoza ensinou que ” […] É útil aos homens, acima de tudo, formarem associações e se ligarem por vínculos mais capazes de fazer de todos um só e … é-lhes útil fazer tudo aquilo que contribui para consolidar as amizades […]” Como os seres humanos são volúveis, invejosos e inclinados mais à vingança que à misericórdia, é necessário nesta ação duas coisas: arte e vigilância. Assim, para o bom êxito, Spinoza segue afirmando que, “é necessária, portanto, uma potência de ânimo singular PARA ACEITAR CADA UM SEGUNDO SUA RESPECTIVA MANEIRA DE SER e para evitar imitar os seus afetos”. [Apêndice da IV Parte da Ética, cap.13]. Desta forma, temos duas ações fundamentais para consolidarmos nossas amizades:

1. Aceitar o outro como ele é, e isto implica reconhecer as grandezas e as limitações do amigo, sem querer modificá-lo a nossa imagem e a nossa semelhança. Esta atitude não é fácil, pois temos a tentação de dominar, controlar e manipular os outros. Além disso, “narciso acha feio o que não é espelho”. É preciso respeitar o ritmo do outro. Além do mais, o grande problema nas relações humanas é a idealização, as pessoas não se relacionam com as pessoas de carne e osso, elas se relacionam com a imagem idealizada que produzem mentalmente, porém quando os acontecimentos as desterritorializam, e são obrigados a enxergam para além da imagem, surge a decepção. Assim, a dor da decepção é produzida pelo choque da desterritorialização, a imagem do amigo é sempre diferente do amigo real, e precisamos aceitá-lo como ele é.

2. Autoaceitação, não podemos nos tornar sombra ou espelho do outro, é necessário não imitar o outro como fazem os bajuladores, amigo de verdade não precisa rir das piadas sem graças só para agradar, não se desrespeita, não se deixa confundir. Os afetos do amigo são deles não precisamos reproduzir em nossa vida. Evidente se o amigo esta passando por uma situação triste e difícil , normalmente nos entristeceremos com ele, mas nossa tristeza nunca será igual ou superior à dele. É preciso respeitar nosso ritmo, nossa ritimicidade.

A FORÇA DO ELOGIO

Antes de me acusarem de contraditório devido a postagem sobre “O PERIGO DOS ELOGIOS” , quero afirmar que não estou escrevendo o oposto do que disse antes, continuarei concordado com o pensador de Florença Maquiavel, precisamos ter muito cuidado com os elogios dos bajuladores, pois se, por um lado, existe um risco dos elogios, por outro, temos que reconhecer também que existe uma força dos elogios na e para a vida, principalmente, nas relações entre pais e filhos, e entre professores e alunos, mas, não só nessas relações sociais, em toda relação os elogios tem força de maior ou menor intensidade. Os elogios verdadeiros e sinceros são fundamentais no processo de fortalecimentos dos vínculos afetivos, pois eles geram alegria e prazer, que aumenta a potência de agir e, ao mesmo tempo, produz uma sensação “de que um obstáculo está em vias de ser ultrapassado”; o oposto das críticas que só apontam defeitos e falhas que geram tristeza e dor, que diminui a potência de agir. Não estou advogado que devemos inventar, precisamos reconhecer as qualidades que todas as pessoas sempre têm e exalta-las como estimulante. As críticas não estimulam ninguém a mudar de vida ou melhora-la. A crítica produz efeito construtivo apenas conjugada com os elogios, isolada é corrosiva e destruidora enquanto que o elogio verdadeiro é sempre edificante. Acredito que quando Santo Agostinho disse que: “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem”, não estava falando da relação país e filhos, referia-se as outras relações sociais, e estava com certeza se desviando dos aduladores. O elogio na relação entre pais e filhos não são corruptoras, mas fortificante e, em alguns momentos, são bálsamo para a vida. Acredito que elogiar precisa virar hábito, tínhamos que ter essa capacidade de elogiar as pessoas sempre, mas isso só acontecerá se respeitarmos os outros. Respeitar as pessoas é aceita-las como elas são, é o exercício da tolerância. Existe uma diferença sensível entre receber elogios e se auto-elogiar, o primeiro produz aquela sensação de felicidade do reconhecimento do outro o segundo não tem este efeito. Então precisamos elogiar mais e criticar menos, pois o elogio sincero é saúde para a vida, pois ele produz leveza no viver.